28/10/2026
Maternidade vegana com a Carmen Pinho 💜 “Senti desde cedo uma ânsia por justiça e um desejo de defender quem mais precisa”

Descobri a Carmen através da divulgação desta rubrica, da qual ela aceitou participar. Comecei a Maternidade Vegana Com... em 2018 e é incrível como os preconceitos conseguem durar anos e serem confundidos com factos, espelho da iliteracia alimentar e também de uma dissonância cognitiva que ergue uma defensiva hostil quando vê-se confrontada com a questão da ética animal. No meio deste turbilhão, é maravilhoso saber que há mães e pais que resistem e que, com pequenos gestos, recusam um sistema cruel através da preservação da empatia natural das crianças pelos animais, coerente com aquilo que é-lhes colocado no prato. O meu muito obrigada, em nome dos animais, e sigamos!
Fala um bocadinho de ti.
Nascida no dia 1 de Novembro (dia do Veganismo, coincidência ou não). Tenho 39 anos, marcados por vários desafios ao longo da vida e especialmente por uma maneira de ver e estar na vida totalmente diferente do que é a “regra”. Sempre a “ovelha verde” da família. Talvez por ter crescido num bairro social, onde vi muita podridão humana, senti desde cedo uma ânsia por justiça e um desejo de defender e proteger quem mais precisa e por isso, a minha licenciatura em Direito. Muito embora a licenciatura, foi no activismo e no voluntariado que encontrei a minha real vocação e por isso mesmo, em paralelo, acabei por tirar uma pós-graduação em Direito dos Animais, de forma a unir estas duas vertentes. Levo a vida com muita empatia pelo próximo (em especial, pelos animais!), resiliência e determinação pela defesa dos meus valores e convicções.
Quando te tornaste vegana? Quais foram os motivos principais?
Tornei-me vegetariana aos 23 anos de idade e vegana aos 30. O que me levou a trilhar este caminho e manter-me nele até hoje, apesar das dificuldades e pressões, foi a empatia, o amor e respeito por todos os seres vivos. O caminho para mim sempre passou pela Libertação Animal e vejo no veganismo mais que uma filosofia de vida: um movimento político, de luta por quem é vítima e não tem voz para se fazer ouvir!
Como foi a tua alimentação durante a gravidez? Que cuidados tiveste?
A minha alimentação continuou igual. Mudei apenas o aporte de certos nutrientes ao longo da gravidez, consoante as necessidades, e fui sempre suplementada (com suplementação vegan e seguida por uma nutricionista, também ela vegan).
Arte de Catie Atkinson
Achas que a maternidade mudou a forma como vives o veganismo ou reforçou ainda mais os teus valores?
Não sinto que tenha mudado, pois, já tinha os meus valores bem vincados. Reforçou apenas o que já sentia e pensava acerca da exploração e crueldade animal que existe no mundo, e como não gostaria que o meu filho fosse mais um a contribuir para esse ciclo. Fico, sim, com receio de que o meu filho não tenha a mesma convicção e valores que eu no futuro, mas isso não consigo controlar. Naquilo que puder, e enquanto puder, irei fornecer informação e uma orientação para que ele respeite toda a forma de vida, seja empático por cada uma e faça diariamente o melhor que puder para melhorar a vida de cada ser e que não contribua para um sistema especista, baseado na exploração e crueldade animal.
O teu bebé está na fase da introdução alimentar. Quais foram os primeiros alimentos que lhe ofereceste? Houve algum que te tenha surpreendido pela reacção dele?
Sim, ele já iniciou a alimentação sólida. A alimentação dele também é toda vegan e os primeiros alimentos que lhe dei foram legumes — abóbora, couve flor, brócolos — e frutas – pêssego, figo, manga, abacate. Surpreendeu-me não ser fã de maçã, que é algo que a maioria dos bebés gosta, e ele não é fã 😅 O abacate não gostou, mas eu também não gosto, por isso não julgo 😁
Ainda sobre a introdução alimentar, sentiste algum preconceito ou resistência por parte de profissionais de saúde ou de familiares? Como lidaste com isso?
Se senti preconceito e resistência por parte de profissionais de saúde e da família acerca da introdução alimentar do Rafael? Uiiii! Foi o que mais senti... acho que a maioria das mães vegan infelizmente sente isso.
Sempre senti preconceito. Ao engravidar piorou bastante, pois, a carga e pressão para mudar a minha alimentação para “não prejudicar o bebé” foi enorme e de todos os lados, praticamente. As minhas escolhas foram sempre colocadas em causa enquanto gerava uma vida. Dos episódios mais marcantes de que me recordo, foi terem-me dito numa das consultas, onde era seguida, Que seria uma sorte se o bebé sobrevivesse, dada a minha alimentação. Depois, o Rafael nasceu e logo na maternidade já o queriam entupir de tudo e mais alguma coisa porque podia ter falta de vitaminas, porque a mãe é vegan e por precaução era melhor fazer logo uma data de suplementação, o que eu recusei. Também queriam fazer análises logo no primeiro mês, para confirmar que estava tudo certo e que não teve falta de nutrientes durante a gestação devido à minha alimentação.
Ao iniciar a alimentação não foi diferente: muitas questões, dúvidas e julgamentos. Tantas vezes ouvi a frase “Não vai dar nem ovo?!”. Ele é seguido por uma nutricionista e suplementado. O curioso é que esta preocupação, de um acompanhamento e de uma suplementação, deveria existir para cada criança, independentemente da alimentação que tenha, porque a verdade é que os défices nutricionais existem na maioria das crianças e a esmagadora maioria não é vegan.


Arte de Linda Bell
O que significa, para ti, educar um filho para crescer com empatia por todas as formas de vida?
O papel mais importante que alguém pode ter é educar outro ser humano e orientá-lo para que seja uma pessoa empática e que respeite todas as forma de vida. Levo esse papel muito a sério e, sinceramente, causa-me muito ansiedade pensar que posso não estar à altura, e que a minha voz e a minha mão poderão não ser suficientes contra tantos e tão maus exemplos que se vê e ouve diariamente. De qualquer forma, faço o que está ao meu alcance e essa preocupação começou desde a gestação dele, que continuou totalmente vegan e activista.
O que gostarias que mudasse na forma como a sociedade encara famílias que educam os filhos a respeitar todos os animais?
Sinceramente, para mim, o ideal seria uma sociedade na qual todas as famílias tivessem esta filosofia de vida, mas infelizmente sei que é impossível, pelo menos para já. Por isso, a curto prazo, gostaria que houvesse respeito, confiança e empatia (esta palavra, para mim, devia estar presente no dicionário e no dia-a-dia de cada um) por quem educa filhos nesta filosofia. É avassalador viver a maternidade (ainda para mais quando é solo, como a minha!) com todos os desafios e obstáculos inerentes à mesma, quanto mais se somarmos críticas, pressões e julgamentos extra. São completamente desnecessários para acrescentar à luta diária que uma mãe já trava. Por isso, empatia e respeito era o que desejava! ■
Sinceramente, para mim, o ideal seria uma sociedade na qual todas as famílias tivessem esta filosofia de vida, mas infelizmente sei que é impossível, pelo menos para já. Por isso, a curto prazo, gostaria que houvesse respeito, confiança e empatia (esta palavra, para mim, devia estar presente no dicionário e no dia-a-dia de cada um) por quem educa filhos nesta filosofia. É avassalador viver a maternidade (ainda para mais quando é solo, como a minha!) com todos os desafios e obstáculos inerentes à mesma, quanto mais se somarmos críticas, pressões e julgamentos extra. São completamente desnecessários para acrescentar à luta diária que uma mãe já trava. Por isso, empatia e respeito era o que desejava! ■
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Parte da resistência ao antiespecismo não nasce da nutrição, mas de doxas culturais profundamente estabelecidas sobre identidade e género. Uma delas é a conexão entre carne e masculinidade.
Como referi aqui, a soja tem sido amplamente atacada. Além da crescente tendência pró-carne, este ataque cerrado está, também, conectado com o surgimento de um padrão de hipermasculinidade, fruto da manosfera (comunidade que, além de promover misoginia e violência contra as mulheres, é também violenta com os próprios homens), que estabeleceu que certos alimentos devem ser totalmente evitados por serem “femininos”. Produtos à base de soja são alguns deles.
Essa ideia não é propriamente de agora: Carol J. Adams dissecou-a historicamente, socialmente e filosoficamente, há quase 40 anos, mostrando que o paradigma da carne, como alimento essencialmente masculino e associado à virilidade nasceu há mais de 200 anos, de mãos dadas com a consolidação do sistema patriarcal. Outrora, a carne representava o status económico da pessoa: a partir do século XIX passou a ser como que uma calculadora de masculinidade para os homens.
Para acompanhar o perambular do tempo, a narrativa modernizou-se e agora vende-se através de propagandas de churrasco, hambúrgueres gigantes e dietas excessivas em proteínas. A soja, por ser uma proteína vegetal, tem a sua versatilidade arrasada e rejeitada. A disseminação de que produz/imita/aumenta estrogénio no nosso corpo também é bastante aplicada para assustar os homens e relegá-la para comida de mulher.
Tudo isto atingiu proporções tão espantosas que levou a que toda esta questão da carne, da soja e da masculinidade voltasse a ser tema de estudos psicológicos e sociais. As descobertas e interligações desses estudos estão a ser, por falta de palavra melhor, fascinantes:
A rejeição da soja como espelho da masculinidade frágil: por ser rotulada como feminina, os rapazes e os homens recusam-se a consumi-la, principalmente à frente dos seus pares. Um estudo da University of Bath demonstrou que, quando a masculinidade de um homem é colocada em causa, uma das respostas imediatas é rejeitar opções vegetarianas e escolher pratos com carne vermelha;
A preferência pela carne como ferramenta performativa: o seu consumo exagerado é uma forma de deixar claro o estatuto do homem enquanto macho alfa (seja lá o que isso for). Num estudo australiano, homens que se autoidentificavam como “mais masculinos” mostraram menos intenção de reduzir o consumo de carne. Já um inquérito, neste caso norte-americano, teve 53% dos homens a considerar uma dieta carnívora como “masculina”, 49% a classificar a carne como “masculina” e 35% a associar produtos à base de soja ao “feminino”.
O poder da falsa ciência e as suas consequências: neste caso, os homens evitam soja por receio dos fitoestrogénios poderem afectar as suas hormonas. Todavia, são inúmeras as evidências médico-científicas que refutam essa premissa.
A rejeição da soja por preconceito eurocêntrico e colonial: a manosfera, à boleia da extrema-direita, recuperou discursos discriminatórios e racializados que já circulavam no século XIX, quando os impérios britânico e norte-americano associavam dietas maioritariamente vegetais dos povos asiáticos à fragilidade e à feminilidade, em contraste com a suposta virilidade ocidental ligada ao consumo de carne. Os povos asiáticos eram dóceis por comerem arroz; já os ocidentais eram fortes e conquistadores por comerem carne.
A título de curiosidade, houve uma mentalidade similar no século XVI com a colonização dos países sul-americanos por parte dos espanhóis e portugueses. Os primeiros demonizavam o milho; os segundos, a mandioca. Estes e outros alimentos eram vistos como “comida de selvagens”, ao passo que pedaços de porco, vaca e aves eram “comida de gente civilizada”.
A título de curiosidade, houve uma mentalidade similar no século XVI com a colonização dos países sul-americanos por parte dos espanhóis e portugueses. Os primeiros demonizavam o milho; os segundos, a mandioca. Estes e outros alimentos eram vistos como “comida de selvagens”, ao passo que pedaços de porco, vaca e aves eram “comida de gente civilizada”.
Carne = virilidade: a generificação alimentar e o surgimento do “soy boy”
Como mencionei, logo no início do artigo, a manosfera não só é violenta com as mulheres: também o é com os próprios homens, incluindo os que estão dentro dela. É um núcleo que se alimenta das inseguranças dos rapazes e dos homens, exagerando-as e transformando-as num problema gigante, encaminhando estrategicamente a culpa para as mulheres. Em vez de acolherem o jovem, dizem-lhe que está a falhar enquanto homem. O processo de radicalização começou.
Por esse motivo, é raro a manosfera conseguir aliciar homens que se sentem seguros em relação a si próprios (importante salientar que egocentrismo e complexo de superioridade, mesmo parecendo, não constituem autoconfiança), pelo que a táctica aplicada é investir contra a fundação dessa segurança: assim surgiu o soy boy, termo que recorre à soja para pejorar homens que rejeitam a masculinidade artificializada.
De acordo com a manosfera, o soy boy é um rapaz ou um homem fraco, submisso e traidor da masculinidade. Rapazes e homens que são incluídos nesse insulto, regra geral, fazem coisas como respeitar as mulheres, ter empatia, praticar exercício ou desporto por razões de saúde e de bem-estar (e não para parecer um fisiculturista), preferir o diálogo ao confronto directo, ler e jogar. Em suma, rapazes e homens perfeitamente normais e que estão confortáveis com os seus gostos, os seus valores e preferem lidar com as suas vulnerabilidades de uma forma mais saudável.
A alimentação, claro, está incluída nesta categorização: veganos, automaticamente, são soy boys. Homens que não são veganos mas que têm uma dieta diversificada e optam pela opção vegetariana do restaurante, também são soy boys. O que está no prato transformou-se tanto numa arma de arremesso como num escudo de defesa: no primeiro, procura-se diminuir a masculinidade de um homem, ridicularizando-o por não comer a quantidade de carne vermelha que “deveria comer”. No segundo, procura-se cimentar essa masculinidade, preservando a autoimagem, através do consumo exacerbado dessa carne.

As raízes da relação entre consumo de carne e masculinidade são aproveitadas para fazer pressão social e psicológica através de publicidade. Da esquerda para a direita, terminando em baixo: Capa da revista Muscle & Fitness, 2009; Capa de um livro da Esquire, 2011; Anúncio de uma marca de cerveja neozelandesa, 2011.
Esta ligação entre a virilidade e o consumo de carne, que a manosfera hoje explora e desenvolve hiperbolicamente, possui, como indiquei inicialmente, raízes histórico-sociais. Uma dessas raízes é, sabemos agora, uma falácia: o mito do homem-caçador. Por muito tempo acreditou-se que, nas comunidades caçadoras-recolectoras, o homem caçava e a mulher recolectava, pré-estabelecendo papéis de género. Todavia, descobriu-se que tais papéis não existiam e que tanto os homens como as mulheres praticavam as duas actividades. Também se descobriu que, quando os dois caçavam, em detrimento do homem caçar sozinho, havia mais alimento para a comunidade, fundamentando a sua sobrevivência com maior eficácia. No entanto, o mito acabou por se consolidar e tornar-se mais relevante do que os factos.
Esta ligação entre a virilidade e o consumo de carne, que a manosfera hoje explora e desenvolve hiperbolicamente, possui, como indiquei inicialmente, raízes histórico-sociais. Uma dessas raízes é, sabemos agora, uma falácia: o mito do homem-caçador. Por muito tempo acreditou-se que, nas comunidades caçadoras-recolectoras, o homem caçava e a mulher recolectava, pré-estabelecendo papéis de género. Todavia, descobriu-se que tais papéis não existiam e que tanto os homens como as mulheres praticavam as duas actividades. Também se descobriu que, quando os dois caçavam, em detrimento do homem caçar sozinho, havia mais alimento para a comunidade, fundamentando a sua sobrevivência com maior eficácia. No entanto, o mito acabou por se consolidar e tornar-se mais relevante do que os factos.
Por muitos anos, a carne era uma divisória alimentar entre classes: os mais economicamente favorecidos ingeriam-na em abundância, fossem homens ou mulheres, enquanto os menos economicamente favorecidos comiam-na com penúria. A carne, por isso, era vista como um alimento de luxo e ostentação (as famosas tartes com 24 melros, exclusivas das cortes reais, eram uma forma de mostrar isso), enquanto os cereais, as frutas e os vegetais eram tidos como incompletos e pobres – comida de camponês.
Foi por volta de 1800, com o advento da Revolução Industrial, que a associação entre virilidade e consumo de carne se firmou. O operário-máquina necessitava de carne para ficar forte e fazer bem o seu trabalho, o que incentivou à distribuição desigual dos alimentos dentro do próprio lar: enquanto os homens ficavam com os pedaços de animais e com uma refeição mais pronunciada em quantidade, as mulheres e as crianças praticamente ficavam com os restos: batatas, vegetais, pão e chá. A carne era oferecida quase exclusivamente ao homem para que ele permanecesse forte, algo imprescindível num trabalho fisicamente exigente e perigoso.
Carol J. Adams, em A Política Sexual da Carne, oferece alguns exemplos e relatos desse tempo:
Quando a pobreza forçava uma distribuição conscienciosa da carne, quem a recebia eram os homens. Muitas mulheres enfatizavam que tinham guardado a carne para o marido. Explicavam assim as conexões entre o consumo de carne e o papel masculino: “Guardo-a para ele; ele tem de comer carne.” (...) As mulheres comiam carne uma vez por semana com os filhos, enquanto o marido consumia carne e bacon “quase diariamente”.
Hoje sabemos que a força física não depende do consumo de carne e que dietas vegetarianas bem planeadas conseguem sustentar desempenho físico e massa muscular. No entanto, a crença de que a carne é imprescindível para obter essa força, bem como para provar masculinidade e virilidade, está bastante enraizada, fortalecida pelo preconceito, desinformação e pseudociência.
“A soja faz crescer mamas nos homens”
Quem nunca ouviu ou leu essa frase? Até poderia ser o mantra da soja se fosse verdadeiro, de tantas vezes que é pronunciada. Ademais, só nos homens? A sério?
Enquanto rumino, inconformada, tamanha injustiça, deixo para vocês o que os especialistas dizem sobre a soja:
Sandra Silva, nutricionista, explica que “as isoflavonas são consideradas fitoestrogénios e têm uma acção semelhante à dos nossos estrogénios endógenos”, conseguindo ligar-se aos seus receptores. Tais propriedades fazem com que:
Quando os níveis de estrogénio estão baixos (por exemplo, menopausa) – as isoflavonas podem activar ligeiramente o receptor, produzindo um efeito semelhante ao estrogénio, mas muitíssimo mais fraco;
Quando os níveis de estrogénio estão altos – as isoflavonas competem pelo receptor, fazendo com que minimize a sua acção – ou seja, têm um efeito antiestrogénico, igualmente fraco.
Mas, e nos homens?
Mesmo sendo, pelo senso comum, uma hormona feminina, o estrogénio é essencial nos homens, estando ligado à saúde óssea, líbido, função eréctil, cérebro, metabolismo e eixo hormonal. As isoflavonas agem da mesma forma, mas com um detalhe relevante: o efeito é praticamente nulo. Por esse motivo, a evidência clínica disponível não revela associação consistente que possa assinalar a soja como potenciadora ou desencadeadora de um desequilíbrio hormonal que provocará diminuição da testosterona ou seios pronunciados nos homens.
Na verdade, a soja é um alimento nutricionalmente denso. Tem proteína completa, gorduras insaturadas, hidratos de carbono, fibra, magnésio, potássio, ferro, fósforo, folato e vitamina K. Vários estudos e meta-análises apontam que:
Pode ajudar a diminuir o risco de doença cardiovascular, por reduzir moderadamente os níveis de LDL (colesterol mau);
Em caso de diabetes tipo 2, contribui para a melhoria ligeira da sensibilidade à insulina;
Em mulheres pós-menopausa, pode atenuar a perda de densidade mineral óssea;
Por fim, contrariamente ao que se pensa, a soja não aumenta o risco de cancro. De facto, alguns estudos conectam o seu consumo à diminuição desse risco em alguns tipos de cancro, como o gastrointestinal, da próstata, do colon, do endométrio e da mama.
Outro pormenor igualmente interessante: o leite de vaca contém estrogénios verdadeiros, que são mais potentes do que os fitoestrogénios presentes na soja. Todavia, em termos de saúde humana, a evidência actual não mostra efeitos hormonais clinicamente relevantes do consumo normal de leite de vaca. Sendo assim, porque nos afligimos tanto com o leite de soja, cujas isoflavonas são muitíssimo mais fracas do que os estrogénios do leite de mamífera não-humana?
Ironicamente, alguns adeptos da dieta carnívora — bastante defendida pela manosfera — incluem todas as substâncias provenientes de animais na sua alimentação, incluindo leite de vaca (os mais estritos cingem-se a carne vermelha, água e sal), ao mesmo tempo que fogem do leite de soja. Pelos vistos, os critérios usados para justificar tal dieta são ideológicos e não bioquímicos, o que nos leva, novamente, à narrativa do antepassado caçador, à normalização do especismo, à dominância e violência contra os animais como parte, não só do antropocentrismo, mas também do próprio androcentrismo, à carne como completa, vital e masculina e ao vegetal como incompleto, passivo e feminino.
Embora estas interpretações não expliquem todas as escolhas alimentares, ajudam a compreender por que razão certos receios em relação à soja persistem, apesar das evidências não os sustentarem.
***
Recursos utilizados:
A Política Sexual da Carne: Uma Teoria Feminista-Vegetariana — Carol J. Adams
Masculinity Matters for Meat Consumption: An Examination of Self-Rated Gender Typicality, Meat Consumption, and Veg*nism in Australian Men and Women — Samantha K. Stanley, Cameron Day & Patricia M. Brown
New Poll: More Than Half of Men Think Meat Is ‘Masculine’ — Physicians Committee for Responsible Medicine
The Myth of Man the Hunter: Women’s contribution to the hunt across ethnographic contexts — A Anderson, S Chilczuk, K Nelson, R Ruther, C Wall-Scheffler
The Myth of Man the Hunter: Women’s contribution to the hunt across ethnographic contexts — A Anderson, S Chilczuk, K Nelson, R Ruther, C Wall-Scheffler
Soja: Evidência, Mitos e Controvérsias — Sandra Silva
Soya products and serum lipids: a meta-analysis of randomised controlled trials — Cambridge University Press
Effects of soy consumption on metabolic parameters in patients with metabolic syndrome: A systematic review and meta-analysis — N Mohammadifard, F Sajjadi, F Haghighatdoost
The Role of Soy Isoflavones in the Prevention of Bone Loss in Postmenopausal Women: A Systematic Review with Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials — A Barańska, W Kanadys, M Bogdan, E Stępień, B Barczyński, A Kłak, A Augustynowicz, M Szajnik, U Religioni
Neither soy nor isoflavone intake affects male reproductive hormones: An expanded and updated meta-analysis of clinical studies — K E Reed, J Camargo, J Hamilton-Reeves, M Kurzer, M Messina
The associations of soya intakes with non-communicable diseases: a scoping review of meta-analyses — Cynthia Sau Chun Yip , Yuk Cheung Yip, Wendy Chan
Imagem: Like Meat
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O algoritmo do Instagram, quando quer, entrega bom conteúdo e, consequentemente, pessoas com conteúdo. Coisa rara na feira das vaidades digital que as redes sociais se tornaram. Foi assim que descobri a Hanna, através de uma carta que ela criou sobre a indústria dos lacticínios. As suas partilhas mostram alguém que não tem medo algum de mergulhar de cabeça e nadar contra a corrente, seja sobre os animais, seja sobre a visão paradigmática da maternidade. O seu testemunho é, a meu ver, um dos mais crus desta rubrica, no qual ela fala, principalmente, sobre como o veganismo inclui respeitar a empatia que as crianças sentem pelos animais e como faz dele, portanto, algo natural do ser humano e não uma imposição. Palavras que, mais do que merecem ser lidas, merecem ser absorvidas.
Fala um bocadinho de ti.
Sou originalmente da Bielorrússia e vivo actualmente nos Países Baixos. A minha formação profissional é em Design UX, sendo que hoje a minha vida é dedicada a ser mãe a tempo inteiro da minha filha de 3 anos e activista pelos direitos dos animais. Recentemente, o meu activismo também tomou um rumo criativo: escrevo livros infantis centrados no veganismo e no respeito pelos animais, e o meu primeiro livro está, neste momento, a ser ilustrado.
Quando te tornaste vegana? Quais foram os motivos principais?
Tornei-me vegana há menos de um ano, embora tenha sido vegetariana durante os sete anos anteriores. Durante muito tempo, estive profundamente condicionada pela ideia de que o veganismo fazia mal à saúde. Tornar-me mãe mudou isso: levou-me a questionar as coisas de forma mais crítica, a procurar efectivamente por investigação científica e, finalmente, compreendi que a narrativa antivegana não passa de uma mentira.
Quando finalmente abri os olhos para a realidade da exploração animal, reconhecendo que os animais são indivíduos sencientes, que não nos pertencem, simplesmente não consegui voltar a fechar os olhos.
Aproveitando para partilhar sobre outras culturas, como é ser mãe e vegana nos Países Baixos?
É um país de grandes contrastes: por um lado, os Países Baixos têm opções veganas fantásticas, comunidades muito boas e inúmeras oportunidades para fazer activismo. Por outro, é um país fortemente agrícola, onde os lacticínios — especialmente o queijo — comportam um papel enorme na cultura alimentar. Além disso, há uma kinderboerderij (quinta pedagógica com animais) em praticamente todos os bairros.
É um desafio constante tentar navegar neste ambiente. Como a minha filha não frequenta uma creche, ainda não teve de enfrentar directamente o conflito diário entre os valores da nossa família e a forma como o resto do mundo, maioritariamente, funciona. Mas, à medida que vai crescendo, começa a reparar nessas contradições. E responder às suas perguntas sobre as mesmas já se tornou uma base integrante do nosso quotidiano.
Adoptaste uma alimentação totalmente vegetal há menos de um ano. Como foi essa mudança, tanto para ti como para a tua criança?
A transição foi incrivelmente tranquila para todos nós: as únicas coisas que nos separavam de uma alimentação de base vegetal eram o queijo, os ovos e o mel. Fizemos a mudança passo a passo, trocando esses alimentos que consumíamos por alternativas de origem vegetal.
Para a minha filha, a única mudança verdadeiramente perceptível foi os ovos. Limitámo-nos a contar-lhe a verdade sobre aquilo pelo qual as galinhas são forçadas a passar para que um ovo chegue ao nosso prato. Ela aceitou, fez várias perguntas muito ponderadas e, passado algum tempo, começou até a sugerir que abordássemos as pessoas que estavam a comprar ovos no supermercado, para lhes contarmos aquilo que sabemos.
Para mim e para o meu marido, a mudança foi igualmente simples e transformou totalmente, para melhor, a forma como comemos. Comprei alguns livros de culinária vegetal e cozinhar tornou-se num verdadeiro passatempo para mim. Nunca comemos de forma tão variada e deliciosa como até agora.

arte de Julianna Bíbor
Tornares-te mãe mudou a forma como encaras o veganismo ou a tua relação com os animais?
Mudou absolutamente tudo para mim. Tornar-me mãe alterou totalmente a minha perspectiva.
Nunca apoiamos jardins zoológicos ou outras formas de entretenimento baseadas no confinamento e na exploração animal. Sempre adorei cães e fiz voluntariado, mas estava convencida de que as galinhas punham ovos e as vacas davam leite porque é assim que a natureza determinou que as coisas fossem.
Mas, certo dia, enquanto estava a cozinhar um ovo para o pequeno-almoço, a minha filha questionou-me do que era ele feito. Foi a partir daí que comecei a aprofundar estas questões e descobri o horror absoluto daquilo que realmente acontece. Viver, na primeira pessoa, a profundidade e a força do vínculo entre uma mãe e o seu filho fez-me sentir fisicamente doente perante a ideia de que existem indústrias que literalmente lucram com a destruição de famílias.
Escreveste uma carta sobre a indústria do lacticínios. Consideras que o veganismo também é uma questão feminista?
Sem dúvida. A indústria dos lacticínios, tal como o resto da pecuária, assenta inteiramente na exploração do sistema reprodutivo feminino e na ruptura sistemática da ligação entre mães e filhos.
Acredito plenamente que não podemos defender genuinamente os valores feministas e a autonomia corporal enquanto financiamos a reprodução forçada e a exploração dos corpos femininos de outras espécies.
Em criança, testemunhaste situações de crueldade extrema contra animais e foste ensinada a vê-las como “a ordem natural das coisas”. Que impacto teve essa dicotomia em ti?
Quando os adultos que amamos e em quem confiamos nos dizem que a violência é “a maneira como o mundo funciona”, tal cria uma dissonância cognitiva profunda e dolorosa.
Hoje percebo, racionalmente, que, enquanto criança, tinha pouquíssimo poder para resistir ou defender o meu ponto de vista perante os adultos que me rodeavam. No entanto, sinceramente, ainda me custa perdoar a minha versão mais jovem por não ter estabelecido essa conexão mais cedo.
Reconectar-me, enquanto adulta, com essa empatia que fora reprimida foi um processo muito pesado. Fez-me ver até que ponto todos nós somos abissalmente condicionados pela sociedade, e essa percepção tornou-se a minha principal motivação para quebrar, com a minha própria filha, este ciclo de crueldade normalizada.
Como é criar uma criança antiespecista num mundo especista? Quais os desafios?
Criar uma criança antiespecista num mundo especista é, indubitavelmente, um desafio constante. As pessoas à nossa volta conseguem ser incrivelmente críticas – mas continuo a tentar encontrar maneiras de desconstruir esses estereótipos e mostrar-lhes que não “comemos só erva”.
Há, sem dúvida, momentos em que me sinto tão sobrecarregada que sinto que a única solução é cortar relações com pessoas não-veganas, mas percebo que isso não é uma opção.
Com a minha criança, abordo as conversas sobre os animais com absoluta honestidade, procurando encontrar palavras adequadas à sua idade.
Dói todas as vezes, porque sou em quem está, aos poucos, a desconstruir aquela versão perfeita e intocada do mundo em que ela entrou – um mundo onde as mães e os filhos ficam sempre juntos e ninguém magoa deliberadamente outro ser.
Gostarias de deixar alguma mensagem para as mães e os pais, em geral?
A minha principal mensagem é esta: se criam o vosso filho como vegano estão a dar-lhe uma escolha, e não a fazer essa escolha por ele.
É frequente ouvir que os parentes veganos privam os filhos de alguma coisa ou escolhem por eles. Todavia, banalizar a exploração e alimentar as crianças com pedaços de corpos e secreções de animais, antes de elas sequer compreenderem o que são, é que constitui a verdadeira imposição de uma escolha.
Um dia, os vossos filhos poderão sentir-se gratos por terem crescido fora desse padrão de violência, conservando a sua empatia natural intacta. ■
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No meio de tanta azáfama — que, mesmo sabendo que faço imensas coisas, continuo a sentir que nada faço — acabei por semiabandonar esta rubrica, involuntariamente. Preciso urgentemente de parar de criar rubricas quando não consigo ter tempo para elas 🌚 Ainda para mais quando esta tem tanta ternura, típica de tudo aquilo que é infantil. É a mistura perfeita daquilo que mais me define — ser mãe, ser antiespecista e ser obcecada por livros —, pelo que continuar com ela faz todo o sentido, mesmo que demore sete meses a renová-la, como neste caso.
Descobri este livro quando a criança andava numas actividades de escola-floresta, há uns dois anos, e não sei dizer quem ele mais cativou: se a mim, se a ela. A identidade visual minimalista, as poucas palavras mas que tanto dizem, a importância da mensagem... sabia que precisava de arranjar um exemplar para termos em casa.
Assim o foi e rapidamente tornou-se num dos seus livros preferidos. Ela já tem vários livros relacionados com a natureza e os animais, mas este destaca-se por um simples motivo: a paleta de cores. Geralmente, os livros infantis são visualmente ruidosos. Este só recorre a quatro tons, cinco se contarmos com o branco, o que acaba por ter duas vantagens: como contrasta com o livro padrão, chama automaticamente a atenção; e, ao permitir que haja muito espaço para o branco, ajuda a que a criança fique mais atenta à mensagem no lugar de se perder no meio de tanta cor e de tantos elementos.
“Tudo começou quando um pássaro deixou de cantar”
Os animais deixaram de se ouvir. Desde a cidade à floresta, da chita à libelinha, nenhum som é produzido. Além deste pacto silencioso, os animais deixam de fazer o que quer que seja: os selvagens recolhem-se e deixam de ser vistos e os domesticados (incluindo à força, como os elefantes nos circos), recusam-se a executar as suas tarefas. As únicas pessoas que compreendem este protesto são as crianças, que a eles se juntam, deixando de ir à escola e de brincar.
Um silêncio colectivo que grita contra a poluição e a destruição ambiental causadas pelo ser humano.
Sobre a autora: Eduarda Lima é licenciada em Arquitectura e mestre em Motion Graphics (design de movimento). É ilustradora, animadora, designer freelancer e autora de livros infantis, sendo o seu trabalho composto, principalmente, por ilustração e animação 2D e que abrange uma grande variedade de projectos: curtas-metragens, videoclipes, anúncios televisivos, animação de logótipos, tipografia animação de ficção, entre outros. No PIM (Mostra de Ilustração Para Imaginar o Mundo) de 2024, participou com um cartaz pela liberdade do povo palestiniano.
O seu primeiro livro para crianças, O Protesto, publicado em Maio de 2020 pela Orfeu Negro, conquistou o Prémio Nacional de Ilustração 2021, na categoria de menção especial, o Prémio Big Aquisição 2021, na Bienal de Ilustração de Guimarães e foi laureado como um dos melhores livros originais ilustrados pela Image Of The Book em 2020.
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No meio do caos que as redes sociais se tornaram, ainda há coisas bonitas a acontecer por lá. Uma delas foi, precisamente, ter conhecido a Lívia e o seu projecto de cozinha brasileira e sem crueldade. Se são da área de Lisboa e nunca provaram as suas coxinhas, as suas bolinhas de queijo, os seus rissóis, o seu bolo com cobertura de chocolate branco, precisam de mudar isso rapidamente. Cada dentada sabe a conforto, a amor, e leva-nos a uma viagem para o outro lado do Atlântico. A Lívia, só por ser mulher emigrante, com o seu negócio próprio, já é uma força da natureza. E, assim, quando ela também abraçou o infinito projecto que é a maternidade, sabia que tinha de falar com ela para participar nesta rubrica – e as suas palavras não podiam ser mais cândidas e inspiradoras ♡
Fala um bocadinho de ti e do teu projecto.
Fala um bocadinho de ti e do teu projecto.
Meu nome é Lívia, tenho 41 anos e vivo em Lisboa desde 2016. Sou mãe da Maria Helena, que está com 15 meses e também sou mãe do meu projecto de comida vegana.
A Coxinhas da Lívia começou em 2017 como algo provisório até que eu me estabilizasse financeiramente em Portugal. Vida de imigrante é sempre uma montanha russa até que se possa viver e trabalhar noutro país. Mal sabia eu que esse projecto ganharia a forma que tem hoje, passando a ser o meu principal trabalho. Produzimos salgados, doces e bolos veganos, sendo as coxinhas o nosso principal produto. Digo nosso, pois, somos uma empresa familiar.
Quando te tornaste vegana? Quais foram os motivos principais?
Conheci o termo “vegetarianismo” por volta dos 20 anos, através da minha irmã mais nova: ela precisou fazer um trabalho de escola e escolheu abordar o tema. Desde então ela se tornou vegetariana e eu me tornei junto com ela como uma forma de incentivá-la: ao fim e ao cabo foi ela quem me incentivou. Entretanto, eu não tinha uma alimentação balanceada e acabei por abandonar, voltando a ser anos depois, por volta dos 27 anos. Fiz a transição para o veganismo em 2016 junto com a minha mudança para Portugal e, nesta altura, com muito mais compreensão sobre a minha escolha. O motivo principal foi a questão ética.
Como foi a tua alimentação durante a gravidez? Que cuidados tiveste?
Não muito diferente da alimentação antes da gravidez. Apenas ajustei quantidades conforme a gravidez foi avançando. Os únicos cuidados que tive foi de não comer vegetais crus, pois, não sou imune à toxoplasmose. No mais, mantive uma dieta bastante equilibrada, rica em proteínas vegetais (leguminosas, tofu, tempeh etc.), legumes e carboidratos. Durante toda a gravidez tive apoio de uma nutricionista para ter certeza que comia as quantidades certas para o desenvolvimento da minha bebé.
A maternidade aprofundou o teu olhar em relação ao modo como tratamos os animais?
Certo que não precisei de me tornar mãe para ter esse olhar sobre como é horrendo a forma como a indústria nos faz crer que produzir e matar um animal é importante para a sobrevivência humana. Contudo, a maternidade trouxe muito mais empatia para com as fêmeas não-humanas que são criadas para gerar bebés – contra a sua vontade – para que esses bebés sejam retirados delas mal nascem e irem parar numa embalagem de supermercado. Nada é mais duro para uma mãe do que ter seus filhos retirados à força!

Arte de Angelina Bambina
A teu ver, quais são os maiores preconceitos e desinformações em relação à alimentação vegetal infantil?
“Com essa alimentação ela não vai se desenvolver” ou “Não podes forçar a tua alimentação à tua filha” – escutei esta última e ainda nem grávida estava, de uma médica.
Há ainda muitos preconceitos sobre a alimentação vegetal infantil, sem dúvida, bem como desinformação – mas creio que estes dois comentários resumem bastante o que ainda se ouve quando se fala em crianças veganas. Mesmo a questão da suplementação — que crianças omnívoras também precisam — “não precisaria suplementar se comesse carne”. Na maioria das vezes aceno e sigo a vida, noutras é preciso fazer com que compreendam; poderá apenas ser falta de informação mesmo, e educar é a melhor via.
Está cada vez mais difícil conseguir gerir o tempo para cozinhar e fazer refeições que nutrem. Que conselhos dás para quem tem bebés e crianças e queira fugir de refeições industrializadas o mais possível?
Congelar! Não há nada mais reconfortante para uma mãe num dia corrido do que ter refeições prontas no congelador. Basta uma hora num dia da semana para conseguir preparar refeições variadas e congelar ou então guardar em pequenas marmitas para a semana ou dias seguintes. É o que faço aqui em casa, desde opção de pequeno-almoço e lanche, até mesmo almoço e jantar. Tento ter sempre uma sopa congelada e isso faz uma enorme diferença no dia-a-dia! Ainda esses dias estava a pensar sobre isso enquanto lhe preparava um lanche: “Seria mais fácil um industrializado, mas será que quero isso para a minha filha?”. Fazer tudo toma tempo mas acabo sempre por preparar o lanche para os próximos dias. Isso quer dizer que nunca vou lhe dar industrializados? Não, sei que vai acontecer, mas será sempre a excepção e não a regra.
Como ensinar o respeito pelos animais a crianças muito pequenas, como a tua?
Crianças pequenas aprendem observando, por isso a forma como o adulto trata um animal comunica muito para os pequenos olhos observadores. Temos dois gatos em casa e lhe ensinamos desde cedo que os gatos precisam de carinho e beijinhos. Se vamos em alguma quinta pedagógica ou santuário fazemos o mesmo. Ela tem muita curiosidade e fica muito contente em ver os animais e aos poucos vamos lhe dizendo — ainda que pouco entenda — que os animais são nossos amigos. E nas leituras de livros também, que não controlamos, às vezes pode ter uma situação que não concordamos e vamos lhe explicando a nossa forma de ver o mundo e os animais. Para uma bebé de 15 meses nada faz muito sentido ainda, mas o nosso exemplo vai indicar o entendimento dela no futuro.
Partilha uma das receitas predilectas da Maria Helena.
Panquecas! Um dos seus lanches preferidos.

Ingredientes:
2 colheres de sopa cheias de farinha de aveia
1 colher de sobremesa de linhaça moída
1/2 colher de café de fermento
1/2 banana madura amassada ou maçã ralada
Pitada de canela (opcional)
1/2 chávena de água, leite materno, fórmula ou bebida vegetal
Modo de preparação:
Misturar os secos, adicionar a fruta escolhida e o líquido. Misturar tudo ligeiramente até ficar homogéneo, não mexer ou bater demasiado, o suficiente para deixar uma massa nem muito líquida nem muito densa/espessa.
Aquecer uma frigideira untada levemente com azeite e com a ajuda de uma colher de sopa colocar pequenos discos de panquecas na frigideira. Dourar dos dois lados, e está feito.
Servir com fruta e uma manteiga de oleaginosas!
Obrigada pelo espaço e por falarmos de um tema tão importante para o futuro das nossas filhas! ■
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