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14/07/2026

Maternidade vegana com a Lívia Brito 💚 Coxinhas da Lívia


No meio do caos que as redes sociais se tornaram, ainda há coisas bonitas a acontecer por lá. Uma delas foi, precisamente, ter conhecido a Lívia e o seu projecto de cozinha brasileira e sem crueldade. Se são da área de Lisboa e nunca provaram as suas coxinhas, as suas bolinhas de queijo, os seus rissóis, o seu bolo com cobertura de chocolate branco, precisam de mudar isso rapidamente. Cada dentada sabe a conforto, a amor, e leva-nos a uma viagem para o outro lado do Atlântico. A Lívia, só por ser mulher emigrante, com o seu negócio próprio, já é uma força da natureza. E, assim, quando ela também abraçou o infinito projecto que é a maternidade, sabia que tinha de falar com ela para participar nesta rubrica – e as suas palavras não podiam ser mais cândidas e inspiradoras ♡

Fala um bocadinho de ti e do teu projecto.

Meu nome é Lívia, tenho 41 anos e vivo em Lisboa desde 2016. Sou mãe da Maria Helena, que está com 15 meses e também sou mãe do meu projecto de comida vegana.
A Coxinhas da Lívia começou em 2017 como algo provisório até que eu me estabilizasse financeiramente em Portugal. Vida de imigrante é sempre uma montanha russa até que se possa viver e trabalhar noutro país. Mal sabia eu que esse projecto ganharia a forma que tem hoje, passando a ser o meu principal trabalho. Produzimos salgados, doces e bolos veganos, sendo as coxinhas o nosso principal produto. Digo nosso, pois, somos uma empresa familiar.

Quando te tornaste vegana? Quais foram os motivos principais?

Conheci o termo “vegetarianismo” por volta dos 20 anos, através da minha irmã mais nova: ela precisou fazer um trabalho de escola e escolheu abordar o tema. Desde então ela se tornou vegetariana e eu me tornei junto com ela como uma forma de incentivá-la: ao fim e ao cabo foi ela quem me incentivou. Entretanto, eu não tinha uma alimentação balanceada e acabei por abandonar, voltando a ser anos depois, por volta dos 27 anos. Fiz a transição para o veganismo em 2016 junto com a minha mudança para Portugal e, nesta altura, com muito mais compreensão sobre a minha escolha. O motivo principal foi a questão ética.

Como foi a tua alimentação durante a gravidez? Que cuidados tiveste?

Não muito diferente da alimentação antes da gravidez. Apenas ajustei quantidades conforme a gravidez foi avançando. Os únicos cuidados que tive foi de não comer vegetais crus, pois, não sou imune à toxoplasmose. No mais, mantive uma dieta bastante equilibrada, rica em proteínas vegetais (leguminosas, tofu, tempeh etc.), legumes e carboidratos. Durante toda a gravidez tive apoio de uma nutricionista para ter certeza que comia as quantidades certas para o desenvolvimento da minha bebé.

A maternidade aprofundou o teu olhar em relação ao modo como tratamos os animais?

Certo que não precisei de me tornar mãe para ter esse olhar sobre como é horrendo a forma como a indústria nos faz crer que produzir e matar um animal é importante para a sobrevivência humana. Contudo, a maternidade trouxe muito mais empatia para com as fêmeas não-humanas que são criadas para gerar bebés – contra a sua vontade – para que esses bebés sejam retirados delas mal nascem e irem parar numa embalagem de supermercado. Nada é mais duro para uma mãe do que ter seus filhos retirados à força!

Arte de Angelina Bambina

A teu ver, quais são os maiores preconceitos e desinformações em relação à alimentação vegetal infantil?

“Com essa alimentação ela não vai se desenvolver” ou “Não podes forçar a tua alimentação à tua filha” – escutei esta última e ainda nem grávida estava, de uma médica.
Há ainda muitos preconceitos sobre a alimentação vegetal infantil, sem dúvida, bem como desinformação – mas creio que estes dois comentários resumem bastante o que ainda se ouve quando se fala em crianças veganas. Mesmo a questão da suplementação — que crianças omnívoras também precisam — “não precisaria suplementar se comesse carne”. Na maioria das vezes aceno e sigo a vida, noutras é preciso fazer com que compreendam; poderá apenas ser falta de informação mesmo, e educar é a melhor via.

Está cada vez mais difícil conseguir gerir o tempo para cozinhar e fazer refeições que nutrem. Que conselhos dás para quem tem bebés e crianças e queira fugir de refeições industrializadas o mais possível?

Congelar! Não há nada mais reconfortante para uma mãe num dia corrido do que ter refeições prontas no congelador. Basta uma hora num dia da semana para conseguir preparar refeições variadas e congelar ou então guardar em pequenas marmitas para a semana ou dias seguintes. É o que faço aqui em casa, desde opção de pequeno-almoço e lanche, até mesmo almoço e jantar. Tento ter sempre uma sopa congelada e isso faz uma enorme diferença no dia-a-dia! Ainda esses dias estava a pensar sobre isso enquanto lhe preparava um lanche: “Seria mais fácil um industrializado, mas será que quero isso para a minha filha?”. Fazer tudo toma tempo mas acabo sempre por preparar o lanche para os próximos dias. Isso quer dizer que nunca vou lhe dar industrializados? Não, sei que vai acontecer, mas será sempre a excepção e não a regra.

Como ensinar o respeito pelos animais a crianças muito pequenas, como a tua?

Crianças pequenas aprendem observando, por isso a forma como o adulto trata um animal comunica muito para os pequenos olhos observadores. Temos dois gatos em casa e lhe ensinamos desde cedo que os gatos precisam de carinho e beijinhos. Se vamos em alguma quinta pedagógica ou santuário fazemos o mesmo. Ela tem muita curiosidade e fica muito contente em ver os animais e aos poucos vamos lhe dizendo — ainda que pouco entenda — que os animais são nossos amigos. E nas leituras de livros também, que não controlamos, às vezes pode ter uma situação que não concordamos e vamos lhe explicando a nossa forma de ver o mundo e os animais. Para uma bebé de 15 meses nada faz muito sentido ainda, mas o nosso exemplo vai indicar o entendimento dela no futuro.

Partilha uma das receitas predilectas da Maria Helena.

Panquecas! Um dos seus lanches preferidos.


Ingredientes:

2 colheres de sopa cheias de farinha de aveia
1 colher de sobremesa de linhaça moída
1/2 colher de café de fermento
1/2 banana madura amassada ou maçã ralada
Pitada de canela (opcional)
1/2 chávena de água, leite materno, fórmula ou bebida vegetal

Modo de preparação:

Misturar os secos, adicionar a fruta escolhida e o líquido. Misturar tudo ligeiramente até ficar homogéneo, não mexer ou bater demasiado, o suficiente para deixar uma massa nem muito líquida nem muito densa/espessa.
Aquecer uma frigideira untada levemente com azeite e com a ajuda de uma colher de sopa colocar pequenos discos de panquecas na frigideira. Dourar dos dois lados, e está feito. Servir com fruta e uma manteiga de oleaginosas!

Obrigada pelo espaço e por falarmos de um tema tão importante para o futuro das nossas filhas! ■
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gravidez & crianças maternidade vegana
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30/06/2026

Quando Se Quer Cuidar E O Trabalho É Ferir: O Custo Humano da Experimentação Animal

Há uns bons anos, ouvi uma estudante a falar sobre certas tarefas que andava a fazer com roedores. Ao mesmo tempo que falava dos animais com carinho, referindo-se a eles como  “ratinhos fofinhos”, a naturalidade com a qual ela debitava as experiências que estava a realizar neles deixou-me bastante perplexa. Irritei-me visceralmente e, no fundo do meu âmago, vociferei silenciosamente a incongruência de tal discurso. Rotulei a rapariga como hipócrita, que via os “ratinhos fofinhos” como objectos e que, na verdade, não se importava com eles para nada. Nessa altura, também eu frequentava a faculdade e encontrava-me na fase de estar desmesuradamente furiosa para com práticas especistas, de tal modo que nem questionava as complexas e dissimuladas teias desta engenhosa e manipuladora estrutura.

Foi após ter lido o Porque Gostamos de Cães, Comemos Porcos e Vestimos Vacas, de Melanie Joy, que compreendi a crueldade que estas áreas, que exploram animais, perfilam no seu todo: os humanos que nelas participam – como mão-de-obra –  também são impiedosamente atingidos. Têm o coração e a mente desfragmentados à força, dando lugar à rotinização e normalização de práticas hediondas. É uma anestesia obrigatória para conseguirem continuar com o seu trabalho, sob o argumento de que o mesmo é necessário e inevitável — e, ao passo que a Melanie Joy se refere, no livro, aos funcionários de matadouros, o mesmo fez-me recordar desta estudante e dos juízos de valor que decidi ter sobre ela, sem sequer a conhecer, naquele dia. E foi aí que percebi que estas pessoas – as que trabalham nos matadouros, nos laboratórios de investigação científica, etc. – não são monstros. Poderia ser qualquer um de nós – poderia ser eu – no lugar delas. O que mudou não foi o que penso — foi para quem olho.

Por isso, quando descobri a Madeline Krasno, uma antiga trabalhadora-estudante de um laboratório de experimentação animal, percebi que necessitava de partilhar o testemunho dela. Espero, com o mesmo, conseguir apresentar a necessidade de humanizarmos quem depressa resolvemos desumanizar, de forma a que o caminho pela libertação – humana e animal – fique um pouco mais desimpedido — pois, como conseguir trilhar esse caminho quando calamos, à força do nosso preconceito, quem também faz parte dele?

Actualmente a Madeline dedica-se à Justify, uma plataforma que visa unir estudantes e trabalhadores das várias áreas que recorrem à utilização de animais para investigação, com a intenção de denunciar as atrocidades cometidas pelas mesmas — tanto com os animais como com os próprios humanos. Em suma, a organização pretende mostrar, a quem está de fora, que estas pessoas são vítimas – e não cúmplices, como acreditamos – deste sistema.


— Fala um pouco de ti. Quem é a Madeline Krasno?

Desde que me lembro, sempre adorei crianças e animais, e grande parte da minha vida foi passada em funções de cuidado  — tanto de várias espécies [animais] como de crianças, desde a primeira infância até ao ensino secundário. Tenho um mestrado em Educação Humanitária pela Universidade de Valparaiso e licenciaturas em Zoologia e Desenvolvimento Infantil pela Universidade de Wisconsin–Madison.

O meu percurso profissional abrange cuidados com animais, reabilitação de vida selvagem, educação em santuários de animais e desenvolvimento de currículos para aprendentes desde a infância até ao ensino universitário.

Partilho a minha casa com o grande amor da minha vida, Millie Jane, uma cadela cruzada de pastor alemão, bem como com uma enérgica gata bicolor chamada Celia, um divertido gato malhado laranja chamado Calvin, e dois ratos de laboratório reformados, baptizados com nomes de macacos que cuidei no laboratório de primatas: Cheerio e Norm.

Como uma das três cofundadoras da Justify, sinto uma profunda gratidão por poder dedicar a maior parte do meu tempo a construir a organização de que eu própria precisava quando saí do laboratório de primatas pela última vez, em 2013.

— Qual era a tua função no laboratório de animais e que tipo de tarefas desempenhavas?

Como uma estudante universitária inspirada por Jane Goodall, acreditava que trabalhar num laboratório de primatas apoiaria o meu percurso na conservação dos mesmos. Assim, tornei-me cuidadora-estudante de mais de 500 macacos no University of Wisconsin–Madison’s Harlow Primate Lab(1). O meu trabalho incluía alimentar os animais, preparar enriquecimento ambiental, lavar as bandejas sob as gaiolas e as salas dos animais, preparar e administrar medicação (tanto por via oral como por injecção), cuidar de recém-nascidos rejeitados, tratar de grandes quantidades de loiça, reabastecer equipamentos de proteção individual, entre muitos outros afazeres.

Para muitos funcionários de laboratório, testemunhar o que acontece diariamente nesses espaços é extremamente árduo, sobretudo porque grande parte dessas experiências acaba por tornar-se rotineira com o passar do tempo. O cérebro humano adapta-se, para poder lidar com a situação, pelo que práticas que inicialmente seriam chocantes acabam muitas vezes por ser normalizadas, simplesmente para se conseguir continuar a trabalhar.

Tinha 20 anos quando um macaco-rhesus recém-nascido teve uma convulsão e morreu nos meus braços. No dia anterior, tinha chegado ao trabalho e descoberto outro recém-nascido rejeitado, sem vida, numa incubadora. Num único fim-de-semana, coloquei os corpos desses dois recém-nascidos em sacos de risco biológico e levei-os para um congelador. Não foi a primeira vez e não seria a última.

Quando um colega e eu fomos encarregues de retirar um bebé morto dos braços da mãe, em que esta se recusava a largá-lo, fiquei impressionada com a aparente compreensão por parte dela. Dentro de uma gaiola de transporte, alinhada de forma segura a um sistema de contenção sobre uma mesa, ela agarrava-se firmemente ao seu bebé.
Abrimos a porta da caixa de transporte e oferecemos-lhe um marshmallow. Ela avançou, pegou no doce e recuou para dentro da gaiola, ainda com o bebé nos braços. Tentámos novamente. Comeu o marshmallow e recuou, continuando a segurar o seu filho. Uma terceira vez, o mesmo aconteceu.
Mas, à quarta tentativa, a mãe avançou e, em vez de pegar no marshmallow, pousou suavemente o corpo do seu bebé, encostando os lábios à testa da cria antes de recuar para a gaiola — desta vez sem o marshmallow e sem o bebé.
Não tive qualquer dúvida de que a mãe deixou o seu bebé porque percebeu a inutilidade de resistir ao que representávamos. Submeteu-se por resignação, não porque estivesse preparada.

Mais uma vez, coloquei um macaco recém-nascido num saco de risco biológico e num congelador.

Ao cogitar sobre este e tantos outros momentos, posso dizer com toda a certeza que, quando aceitei tornar-me cuidadora de macacos, não era este tipo de trabalho que imaginava.

— Quando começaste a sentir hesitação, ou um conflito ético, em relação ao que ali se passava, e como reagiram os teus supervisores quando decidiste sair?

Senti desconforto quase imediatamente, mas convenci-me de que ter sucesso nesta função e obter uma boa carta de recomendação era fundamental se quisesse seguir os passos da Jane Goodall. Como tantas outras pessoas com quem falei desde então, disse a mim própria que, pelo menos, poderia tentar tornar a vida dos animais menos penosa.

Também tinha a convicção de que, se saísse, alguém menos compassivo ocuparia o meu lugar. Isso fez com que fosse mais difícil me afastar, mesmo quando as coisas não pareciam ser correctas.

Quando saí do laboratório ao fim de dois anos, ofereceram-me uma moldura com uma colagem de fotografias de macacos do laboratório, a agradecer-me em nome de “todos os meus amigos” do Harlow Primate Lab. A minha passagem terminou porque estava a concluir o curso, não porque me tivesse despedido. Tanto quanto sei, o meu supervisor e os meus colegas não ficaram com quaisquer ressentimentos. Eu tinha sempre demasiado receio de expressar o que sentia. Para eles, saí bem.

Só que, na verdade, eu estava tudo menos bem. Esta experiência mudou-me profundamente: levou-me a um nível de conflito emocional e ético para o qual não estava preparada e, mais tarde, a um diagnóstico de perturbação de stress pós-traumático. Durante muito tempo, tive dificuldade em assimilar tudo isso.

Hoje, o que experienciei está no centro de quem sou e do trabalho que desenvolvo como cofundadora e diretora executiva da Justify — apoiando outras pessoas que estiveram dentro deste sistema e ajudando a criar espaço para conversas mais honestas e humanas sobre o que realmente significa fazer parte dele.

— Porque é que a tua universidade tentou censurar-te e impedir-te de falar publicamente sobre o que acontece no laboratório de animais?

Não consigo responder com exactidão sobre as suas motivações, mas aquilo que observámos — e que os tribunais acabaram por reconhecer — foi que a universidade e o NIH (National Institutes of Health) estavam a limitar determinados pontos de vista nas suas plataformas públicas, sobretudo quando se tratava de críticas à investigação com animais.

Como antiga aluna e ex-funcionária da Universidade de Wisconsin–Madison, quis informar melhor os estudantes e os apoiantes da universidade sobre os danos que ocorrem nos laboratórios de primatas no campus. Comecei então a comentar nas suas publicações, nas redes sociais, o que levou à minha censura.

Depois da UW–Madison ter parado de me censurar, na sequência da apresentação do meu processo judicial por liberdade de expressão contra a instituição, reparei que alguns dos meus comentários permaneciam invisíveis para o público. Através de um pedido ao abrigo da FOIA (Freedom of Information Act), descobrimos que as páginas de Instagram e Facebook da universidade utilizavam listas de palavras bloqueadas compostas quase exclusivamente por termos associados à investigação com animais, como “macacos” e “testes”. Estas listas podiam ser alteradas a qualquer momento, tornando praticamente impossível um diálogo público construtivo sobre a investigação com animais realizada no campus.

Outro pedido ao abrigo da FOIA(2) revelou que o NIH(3), o principal financiador da investigação com animais nos Estados Unidos, também bloqueava palavras-chave nas suas páginas de redes sociais. As palavras na sua lista incluíam “macaco”, “chimpanzé”, “testes” e “cruel”. Assim, avançámos também com uma acção judicial por violação da liberdade de expressão contra essa entidade.

Em ambos os casos, o bloqueio de palavras-chave não era apenas uma questão de gestão de conteúdos: era censura. Ao filtrar precisamente as palavras que descrevem o que acontece dentro dos laboratórios, a UW–Madison e o NIH protegiam-se do escrutínio e silenciavam vozes críticas. O que estava em causa não era apenas a minha capacidade de comentar online — era o direito constitucional do público de questionar como são utilizados os impostos nos Estados Unidos para financiar a investigação com animais.

Ganhar estes processos significou poder falar honestamente sobre a minha experiência sem receio de ser silenciada ou sofrer retaliações. Durante muito tempo, senti que as próprias instituições de que fiz parte controlavam a narrativa, mesmo quando eu apenas tentava partilhar aquilo que vivi e o que os animais passavam e passam. Isso ajudou-me a sentir que estava, de certa forma, a compensar o prejuízo do qual fui cúmplice sem nunca ter pretendido sê-lo.

E ganhar estes processos também confirmou o quão estas conversas são importantes, que as pessoas dentro do sistema têm o direito de ser ouvidas e que a transparência é essencial se queremos que a ciência evolua. Contribuiu também, mesmo que modestamente, para alterar o equilíbrio de poder em direcção a uma maior abertura e responsabilização. E tenho orgulho disso.


— Como te sentes hoje em relação ao que viveste e testemunhaste no laboratório?

Sinto inúmeras coisas, mas sobretudo tristeza, arrependimento, clareza e uma compreensão mais profunda daquilo pelo que passei. Fui diagnosticada com perturbação de stress pós-traumático como resultado do meu tempo no laboratório e, com o passar do tempo, reconheci também que a chamada “lesão moral” foi central nessa experiência. Tal discernimento ajudou-me a perceber por que motivo tudo aquilo permaneceu comigo da maneira que permaneceu.

Desenvolvi também muita compaixão por mim própria e por outras pessoas que estiveram em quadros muito semelhantes. Não é que eu tenha seguido em frente, de todo, mas é algo que aprendi a carregar de um jeito que informa o trabalho que faço hoje. Tenho a certeza de que serei sempre assombrada pelos rostos dos macacos… pelos seus sons e pelos seus gritos.

— O que é a Justify?

A Justify é uma organização sem fins lucrativos criada para apoiar pessoas que trabalharam, ou trabalham actualmente, em laboratórios com animais e para defender uma ciência sem sofrimento humano e animal. O nosso foco incide num pormenor que é muitas vezes ignorado: o custo humano da investigação com animais. Isso abrange o impacto emocional, o conflito ético e, para muitos, a experiência de lesão moral que pode surgir ao cuidar de animais enquanto se participa também no seu sofrimento.

O que distingue a Justify é o facto de ser liderada por pessoas que trabalharam dentro da investigação com animais, pelo que o nosso entendimento é vivido e não meramente teórico. Conhecemos a realidade de cuidar de animais enquanto se faz parte de uma estrutura que os prejudica, a pressão para permanecermos calados e o receio de ser mal interpretado ou rotulado como “anti-ciência”. Vivemos na pele o impacto emocional e psicológico contínuos.

Este espaço gera confiança junto de trabalhadores de laboratório, que muitas vezes estão a falar sobre estes assuntos pela primeira vez e isso permite-nos trazer nuances de um tema demasiado polarizado. Como conhecemos a cultura a partir de dentro, conseguimos dialogar com cientistas, instituições e defensores sem recorrer à culpabilização ou à demonização de indivíduos: tal perspectiva é fulcral para criar um diálogo sem barreiras e tecer uma mudança sistémica que, em última análise, reduz o sofrimento tanto de pessoas como de animais.

Trabalhamos em três áreas principais: apoio, partilha de histórias e mudança sistémica. Oferecemos espaços privados, onde trabalhadores de laboratório podem conectar-se e processar as suas experiências. Disponibilizamos recursos para orientar as pessoas, para que compreendam o que estão a sentir, quer ainda estejam nesse trabalho, quer já o tenham deixado. Também damos visibilidade a testemunhos em primeira mão, trazendo à luz o que normalmente permanece oculto, e participamos em conversas mais amplas sobre como fazer avançar a ciência de forma a reduzir o impacto negativo, tanto para animais humanos como não-humanos.

Embora seja uma organização ainda embrionária, as maiores conquistas da Justify têm sido dar visibilidade, legitimidade e estrutura a uma questão que esteve escondida durante demasiado tempo: o custo humano da investigação com animais. Criámos a primeira organização dedicada, liderada por antigos trabalhadores de laboratório, a apoiar outros que enfrentam lesão moral, trauma e isolamento resultantes deste género de trabalho.

Construímos uma rede de trabalhadores antigos e actuais de laboratório, criamos recursos e espaços privados de apoio, organizamos eventos públicos de sensibilização, amplificamos histórias na primeira pessoa e começamos a mudar o debate em torno da investigação com animais, incluindo tanto os animais afetados como as pessoas chamadas a participar nesse processo.

Mostramos que esta não é uma experiência isolada: é urgente descortinar isso, sendo que a Justify está a tornar-se o lugar a que as pessoas recorrem quando estão prontas para questionar, processar, curar ou abandonar o sistema.

— Olhando para trás, o que te dá esperança e o que gostarias que mais pessoas compreendessem sobre a experimentação animal?

Gostaria que as pessoas compreendessem que muitos de nós entramos na investigação animal com boas intenções, não com intenções maliciosas.
Queremos contribuir para o avanço da saúde humana, preocupamo-nos com os animais e procuramos fazer algo com significado. E, ao mesmo tempo, pessoas bem-intencionadas podem fazer parte de sistemas que provocam estragos — e estive incluída neles.

Uma das coisas mais difíceis de aceitar foi perceber que o facto de me preocupar não impedia o sofrimento e, de certa forma, até fazia com que sair [deste trabalho] se tornasse ainda mais complicado. Preocupava-me com quem ocuparia o meu lugar e dizia a mim mesma que, pelo menos, podia tentar tornar a vida dos macacos menos dolorosa.

A indústria da investigação com animais tende a encaminhar pessoas jovens e impressionáveis para este meio, sobretudo estudantes e doutorandos, antes deles entenderem plenamente o que tal trabalho implica ou como pode afectá-los psicologicamente.

Existe uma cultura do silêncio e do secretismo, pelo que muitas pessoas têm receio de falar. Temem represálias, perder o emprego, prejudicar a carreira ou, em alguns casos, até colocar em risco o seu estatuto de visto.
Esse medo silencia imensa gente. Quando as pessoas dentro do sistema são depois rotuladas de “monstros”, isso pode empurrá-las ainda mais para o isolamento e tornar ainda mais difícil procurar apoio ou falar com honestidade sobre as suas experiências — permitindo, no fim de contas, que o sofrimento, tanto humano como animal, continue. Se queremos quebrar esse silêncio precisamos de ponderar, de forma mais crítica, sobre como as narrativas polarizadas, de “nós contra eles”, acabam por calar precisamente as vozes que mais precisamos de ouvir.

Existe também a crença generalizada de que a investigação com animais, por ser regulamentada, significa que eles são bem tratados. Na verdade, essas regulamentações estabelecem comumente padrões mínimos e não condições que evitem o sofrimento. Muitos procedimentos que causam dor, angústia, isolamento e morte precoce são legais e rotineiros, desde que sejam considerados cientificamente justificados.

Assim, quando se diz que os animais são “bem tratados”, isso significa muitas vezes, apenas, que as práticas cumprem as normas, não que sejam verdadeiramente humanas.
E, mesmo quando as pessoas nos laboratórios se preocupam profundamente, estão a operar dentro de um sistema onde o dano é normalizado e difícil de contestar.

É uma realidade complexa, mas se há algo que espero que as pessoas retirem disto é o seguinte: passamos demasiado tempo a fazer suposições uns sobre os outros e muito pouco tempo a fazer perguntas com compaixão e a escutar genuinamente.

A indústria da experimentação animal é poderosa, bem financiada e, em grande medida, escondida do escrutínio público.
Mas o que me dá esperança é o facto do silêncio estar, aos poucos, a quebrar-se. Quando comecei a partilhar a minha história, há anos, sentia-me muito sozinha. Mas, quanto mais falava, mais ouvia outras pessoas – estudantes, técnicos de cuidados animais, investigadores – que também tinham enfrentado o peso moral e psicológico do trabalho de laboratório. Essas vozes, outrora isoladas, estão agora a encontrar-se e a unir-se através da Justify. A mudança não acontece de um dia para o outro, mas a história mostra-nos que sistemas profundamente enraizados mudam quando a verdade e as experiências vividas vêm à superfície. Cada vez que um trabalhador de laboratório fala, cada vez que o público toma consciência do que está oculto, as fissuras deste sistema abrem-se um pouco mais.

— Queres deixar uma mensagem para estudantes e investigadores que trabalham em laboratórios com animais, bem como para activistas pelos direitos dos animais?

Aos estudantes e investigadores que trabalham em laboratórios com animais: se estão a sentir conflito ou se algo não vos parece certo, não estão sozinhos. Muitos de nós entrámos nesta área porque nos preocupamos profundamente com os animais e queremos contribuir para algo que tenha significado. Essa tensão que podem estar a sentir merece espaço e atenção, não ser ignorada. Não precisam de desligar essa parte de vocês para pertencerem ao mundo da ciência.

E aos activistas pelos direitos dos animais: pediria apenas que se lembrem da humanidade das pessoas que estão dentro destas estruturas. Muitas delas estão a lutar mais do que possam imaginar e, quando a conversa se centra na culpa ou em rotular estas pessoas como “más”, isso pode empurrá-las ainda mais para o silêncio e afastá-las do apoio e das conversas honestas que podem conduzir à mudança.

Se queremos progresso — para os animais, para as pessoas e para a ciência — precisamos de mais curiosidade, mais compaixão e mais disponibilidade para nos ouvirmos uns aos outros, especialmente quando é desconfortável. ■

Se és (ex-)estudante, (ex-)trabalhador/a ou (ex-)investigador/a de um laboratório que utiliza animais, podes partilhar a tua história em Justify Global: Share Your Story.

Notas:
(1) Harlow Primate Lab – Laboratório de investigação com primatas da Universidade de Wisconsin-Madison, focado em estudos com macacos em contexto experimental.
(2) FOIA (Freedom of Information Act) – Lei dos EUA que permite ao público solicitar acesso a documentos e informações de entidades governamentais.
(3) NIH (National Institutes of Health) – Instituto Nacional de Saúde dos EUA, sendo a principal agência federal de financiamento da investigação biomédica.
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28/05/2026

“O teu tofu está a destruir a Amazónia”


Ultimamente, a soja tem sido alvo do nosso cepticismo, que vai desde simples dúvidas até à sua aversão. Tal aversão está a ser motivada por uma moda alimentar, que, apesar de recente, rapidamente se espalhou pelas redes sociais: a dieta carnívora, também chamada de dieta da selva.

A ancestralidade é o argumento (ou deverei dizer falácia?) principal. Afirmam que os nossos primeiros antepassados viveram unicamente à base da caça e que a evolução humana descarrilou com a introdução da agricultura. Da crítica contundente contra as plantas, a soja é uma das mais severamente atacadas, tendo-se tornado como que um símbolo de tudo o que deve ser evitado, daí estar a ser vista com desconfiança, desprezo e repulsa.

As tendências, principalmente alimentares, são cíclicas: só esse facto deveria ser o suficiente para não deixarmos que as mesmas substituam o nosso pensamento crítico. No entanto, é o que está a acontecer, daí não ser surpreendente a facilidade com a qual se está a distorcer tanto a soja. Sobre as suas propriedades nutricionais e fisiológicas — bem como outras questões relacionadas com o consumo hiperbólico de carne — isso ficará para outro artigo. Hoje, prefiro pegar noutro contexto que, apesar de não ser tão utilizado como o da saúde para difamar o coitado do tofu, também tem estado em voga: o ambiental.

No meio de tantas justificações para o consumo de carne, uma delas é a desflorestação causada pela soja e como esta, portanto, é insustentável e rouba o habitat natural de muitas espécies ameaçadas: como é que vão explicar isso, veganos?

Bem, vamos lá, então, explicar: sim, a produção de soja é uma das maiores causadoras de desflorestação, mas com um detalhe fundamental: a larga maioria não é para consumo humano directo.

Desmatamento da Amazónia: quem está a destruir a floresta?

De acordo com a Our World In Data, a criação de gado, sob a forma de pastagens, compõe 80% da desflorestação amazónica. A soja vem a seguir, mas com uma diferença avassaladora: 5 a 10% (esta variação deve-se pelos tipos de estudos e se os efeitos indirectos foram neles contabilizados).

Uma nuance importante é que, apesar do impacto considerável, a maior parte da soja é usada para alimentar animais – ou seja, para além dos 80% de desflorestação causada directamente pela criação de gado, a pecuária também provoca desflorestação indirecta através do cultivo de soja.



Não é de admirar, portanto, que a produção de soja acompanhe, precisamente, o aumento do consumo de animais. Em 2023, cerca de 318 milhões de toneladas (t) de soja foram processadas e distribuídas para ração animal, óleo vegetal e biocombustíveis, ao passo que somente 14 milhões de t foram usadas para alimentação humana directa. Essa soja chegou a ser ultrapassada pela quantidade directamente usada para alimentar os animais – 35 milhões de t.

Ao todo:

• 77% da soja é usada para alimentar os animais que são explorados e mortos para consumo humano;
• 19% é usada para consumo humano directo e indirecto (e aqui o óleo vegetal, presente em ultraprocessados, snacks, confeitaria, etc., está incluído);
• 4% é usada para produtos industriais.

Dentro dos 19% para consumo humano, só 7% é para os alimentos à base de soja, como tofu, tempeh, bebida de soja e edamame.

Carne ou tofu: qual exige mais área?


Quanto mais terra um alimento exige para ser produzido, maior tende a ser a pressão sobre os ecossistemas, os habitats naturais e a respectiva vida selvagem.

Para 1 kg de:

• Cordeiro e borrego – usam-se 369.81 m² de terra;
• Carne bovina – 326.21 m²;
• Queijo – 87.79 m²;
• Carne suína – 17.36 m²;
• Carne de aves – 12.22 m².

Em contrapartida, 1 kg de tofu precisa de 3.52 m². Outros vegetais e frutas também usam pouquíssima terra.

Isso significa que:

Produzir 1 kg de carne bovina necessita de quase 100 vezes mais terra do que 1 kg de tofu; queijo, 25 vezes mais; carne suína, 5 vezes mais; carne de aves, 3,5 vezes mais.

Somando esta exigência de terra com o facto de cerca de 77% da soja produzida ser usada para alimentar animais explorados para consumo humano, fica inevitável concluir que a maior responsável pela desflorestação global, no seu todo, é a indústria pecuária.

Tentando fazer uma imagem mental deste uso de terra por kg:

• Carne bovina – 26 lugares de estacionamento;
• Queijo – 7 lugares de estacionamento;
• Tofu – 1/4 de um lugar de estacionamento.

Enquanto isso, se o mundo adoptasse uma dieta de base vegetal, reduziríamos o uso global de terras agrícolas de 4,1 mil milhões para 1 mil milhão de hectares – o equivalente a uma diminuição de 75%.
Com o uso global dessas terras mitigado conseguir-se-ia reduzir a desflorestação, libertando áreas actualmente utilizadas para pecuária e ração, criando-se, deste modo, espaço para a recuperação de habitats naturais. A vida selvagem, seriamente ameaçada, gradualmente refloresceria.

Além de menos terras, com a redução ou eliminação do consumo de animais e dos seus insumos também se conseguiria alimentar mais pessoas. A título de exemplo, se quiséssemos produzir alimento numa área do mesmo tamanho de um campo de futebol, obteríamos:

• 22 kg de carne bovina = ~140 a 150 refeições;
• 81 kg de queijo =  ~540 refeições;
• 420 kg de carne suína = ~2,800 refeições;
• 2,000 kg de tofu = ~13,000 refeições.

Os vários estudos sobre este tema são peremptórios: o consumo directo de plantas — como a soja — é mais eficiente a nível de água, uso de terra, produção calórica e produção proteica.

Posto isto, vale salientar que qualquer tipo de alimentação, obviamente, vai causar impacto ambiental. Esta discussão não é sobre quem é mais ou menos perfeito, ou quem é mais ou menos coerente nos seus valores pessoais: é sobre como se pode reduzir, dentro das nossas possibilidades, a escala desse impacto.

***

Recursos utilizados:

Drivers of Deforestation: The world loses 5 million hectares of forest to deforestation each year. What activities are driving this? — Our World In Data

Causes of Deforestation of the Brazilian Amazon — Sérgio Margulis

Pecuária e desmatamento: uma análise das principais causas diretas do desmatamento na Amazônia — O Almeida, S Ávila, S Rivero e W Oliveira

Agricultural Production — Our World In Data

FAQs on the environmental impacts of food — Our World In Data

If the world adopted a plant-based diet, we would reduce global agricultural land use from 4 to 1 billion hectares — Our World In Data

The opportunity cost of animal based diets exceeds all food losses — A Shepon, G Eshel, E Noor, R Milo
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alimentação sustentabilidade
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14/04/2026

Bolo de laranja e um desabafo



Há uns dias, olhei para a pilha de livros de ética animal que tenho para ler há uma eternidade. Primeiro senti um peso oco, daqueles que esmurram o estômago, por me ter apercebido que nem sequer tenho conseguido pegar pelo menos num para começar a estudar. O maternar intenso, juntamente com o assoberbamento emocional causado pelas hediondezes mundanas, empurrou-me silenciosamente para uma desconfortável inércia da qual estou incapaz de sair. Antes, conseguia ainda encontrar algum optimismo no meio da violência e do ódio: conseguia ainda acreditar na mudança. Mas, com tudo o que se tem passado ultimamente, desde massacres de povos inteiros ao retrocesso de direitos humanos básicos, essa centelha de esperança apagou-se brutalmente do meu coração, o que o levou a encolher-se sobre si próprio e a virar pedra para conseguir aguentar toda esta insanidade.

Se antes a excessiva sensibilidade era um problema, agora é a falta dela. O vazio que muitas vezes me acomete, perante tudo o que se passa, esgota-me a força, a vontade e a força de vontade. Faz com que eu sinta que tudo é em vão.

Chegou a um ponto em que o vazio, pessimismo e sensação de inutilidade, juntos, enrolavam-se e empurravam-me para um reino distorcido no qual tudo ficava embaciado na minha cabeça, sem capaz de construir o mínimo discernimento. A mente estava demasiado amorfa. Pelo que coloquei a mão no coração, apesar da muralha rochosa, e aceitei que desistir não é um sinal de fraqueza. Na verdade, perante a pressão social que constantemente nos grita que produtividade é sinónimo de utilidade — além de termos de fingir que o mundo não está a ruir e que tudo está normal —, desistir é uma forma de sobrevivência. E, neste momento, para conseguir sobreviver, preciso de rejeitar essa romantização da produtividade ao máximo e de abrir mão de algumas coisas, como simples leituras e escritas. Às vezes, deixarmo-nos levar pela corrente é melhor do que nadarmos contra ela. Vou deixar fluir, tentar parar de me sentir mal por não estar a ler e a escrever para o blogue, e continuar focada no que tem sido um refúgio e um exercício de abstracção: cozinhar. Posso não trazer um texto filosófico mas trago uma receita doce para estes tempos que têm sido tão amargos, sendo este bolo um dos preferidos daqui de casa e muito fácil de fazer.

Só precisam de:

1 cup de sumo de laranja natural (duas laranjas grandes)

Raspa de 1 ou 2 laranjas

½ cup de óleo de girassol

¾ cup de leite de soja (ou outro que combine bem, como de aveia)

2 cups de farinha de trigo super fina

1 cup de açúcar mascavado

1⁄4 cup de amido de milho

1 colher de sopa de fermento químico

½ colher de chá de bicarbonato de sódio

1 pitada de sal

Pré-aquecer o forno a 180ºC, com calor em cima e em baixo, sem ventilação.
Numa taça, misturar os ingredientes líquidos: sumo de laranja, óleo e leite de soja, juntamente com as raspas de laranja.
Noutra taça, colocar os ingredientes secos: farinha, açúcar, amido de milho, fermento, bicarbonato e sal.
Adicionar os ingredientes líquidos aos secos gradualmente, mexendo com uma espátula o suficiente para que a massa fique homogénea. Não mexer depressa, nem demais.
Verter numa forma para bolos — previamente forrada e untada, se necessário — e levar ao forno durante 45 minutos ou até o palito sair limpo.

A calda é simples: creme de cacau e avelãs, do estilo Valsoia, cacau em pó 100% e água quente. Misturar nas quantidades desejadas, tanto para consistência (mais creme para efeito ganache, mais água e cacau para efeito calda) como para sabor (mais creme para ser mais doce, mais cacau para ser mais amargo). Espalhar no topo do bolo ainda morno, previamente furado com um garfo para extra humidade.
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receitas
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26/03/2026

Rascunhos Antiespecistas | Sexismo & Especismo: Um Ensaio de Lisa Kemmerer


Nota do blogue: Ao percepcionarem sobre certos pontos similares que conduzem à opressão de grupos diferentes, algumas filósofas aprofundaram os seus pensares e investigações e criaram uma vertente feminista que começou a ser difundida e discutida nos anos 70: o Ecofeminismo. Mesmo sendo relativamente recente, foi e é amplamente explicado e defendido por várias feministas de vários países: Ivone Gebara (Brasil), Mariama Sonko (Senegal), Samantha Hargreaves (África do Sul), Françoise d'Eaubonne (França), Alicia Puleo (Espanha), Vandana Shiva (Índia) e Lisa Kemmerer (EUA), autora do artigo traduzido nesta publicação, são algumas dessas mulheres.

Resumidamente, o ecofeminismo é um movimento que correlaciona o feminismo com outras lutas anti-opressão, como o ambientalismo e o especismo, também se estendendo nos direitos de outras minorias e com um olho crítico no sistema capitalista. Por outras palavras, é uma esfera filosófica que advoga a conexão entre lutas libertárias, visto as discriminações (contra mulheres, o ambiente, os animais, etc.) apresentarem simetrias nas suas posturas e perpetuações. Este ensaio de Lisa Kemmerer ajuda a entender o ponto de vista deste posicionamento feminista, além de apresentar algumas dessas simetrias.

Sobre a autora: Lisa Kemmerer é uma filósofa e activista norte-americana reconhecida pelo seu trabalho em Ética Animal e Justiça Interseccional. Bacharel em Estudos Internacionais, Mestre em Teologia e Doutora em Filosofia, é fundadora da Tapestry, uma organização sem fins lucrativos dedicada à educação e ao estudo sobre as várias estruturas opressoras e como estas estão conectadas. As suas dezenas de artigos e livros abordam, precisamente, esse tema através do ecofeminismo, ética alimentar e a consonância entre religião e direitos dos animais.

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Ecofeminismo, Mulheres, Ambiente, Animais
Lisa Kemmerer | DEP. Deportate, Esuli, Profughe, No. 23/2013

Tempo de leitura: aprox. 20 minutos | Descarregar o PDF


Sistemas de Opressão

Na sua busca para apurar e expor as causas do sexismo, as feministas exploraram o pensamento dualista e a tendência de se formar hierarquias. Com o tempo, essas formas de ver e organizar os indivíduos e o mundo passaram a ser entendidas como forças fundamentais que sustentam e apoiam o sexismo. As ecofeministas, porventura, apontaram que essas mesmas forças criam e apoiam sistemas de opressão que afectam, entre outros elementos, as mulheres, a Natureza e os animais não-humanos.

Dualismo

O dualismo é uma forma de ordenar o mundo através do uso de opostos, como masculino/feminino, civilização/natureza e humano/animal. Esta visão promove uma compreensão reducionista do mundo, em que qualquer coisa e qualquer pessoa que não se qualificar para uma determinada categoria é excluída da mesma e torna-se no outro. O dualismo divide, assim, os seres vivos em duas categorias sexuais: todos os homens são agrupados no nascimento com base na genitália saliente visível, e são considerados separados e distintos dos indivíduos que não possuem genitália saliente – o denominado sexo “oposto”. (...)

De maneira semelhante, a “natureza” é distinguida da civilização, da cultura e dos seres humanos. A Natureza é aquilo que é não é afectado pela Humanidade, e ser humano é ser civilizado e culto: isso é ainda mais evidenciado na nossa tendência dualista de encarar os humanos como separados e distintos de todos os outros animais. O dualismo também divide a mente do corpo e a razão da emoção(1), tratando cada uma como distinta e separada. Estas categorias supostamente exclusivas de masculino/feminino, natureza/cultura e humano/animal, não reflectem adequadamente a complexidade do mundo em que vivemos e nos encontramos. (...)

Hierarquia

O pensamento dualista é corriqueiro no mundo ocidental, bem como em muitas outras civilizações. Através do dualismo, homens, seres humanos, civilização, cultura, mente e o pensamento racional são concebidos como detentores de um conjunto particular de estimadas características, compactando mulheres, animais não-humanos, natureza selvagem, corpos, o mundo material, emoções e intuição numa categoria à parte e considerada inferior. Em Pornography of Meat, a ecofeminista Carol J. Adams usa os termos “A” e “Não A” para descrever esta categorização dualística. Feministas e ecofeministas notaram que o dualismo não é apenas uma divisão de indivíduos e outros elementos em categorias separadas, mas também em categorias iguais. Qualquer elemento e qualquer pessoa inserida na categoria “Não A” é encarada como mutuamente interligada e abaixo de tudo o que compõe a categoria “A”.

A língua portuguesa(2) corrobora este raciocínio: termos depreciativos, utilizados para referir mulheres, são aplicados para referir animais não-humanos, como “vaca”, “galinha” e “porca”. Em comparação, os homens possuem poucas referências relacionadas a animais, sendo que parte das mesmas têm um cunho positivo, como “garanhão” – um forte e viril animal de grande beleza. Em contraste, adjectivos pejorativos, cuja utilização é mal-intencionada e com maldade, são frequentemente reservados para mulheres. Além disso, as mulheres também são visualmente conectadas com animais não-humanos, corpos (em oposição às mentes) e à Natureza, quando retratadas como objectos sexuais ou hipersexualizadas, desde sereias a coelhinhas [da Playboy]. Já os animais, especialmente os explorados como mercadoria, são definidos com traços físicos distintamente femininos, como olhos grandes, pestanas longas e corpos curvilíneos, como poderosamente demonstrado em The Pornography of Meat.

Opressão

Através do dualismo e da hierarquização, indivíduos, atributos e objectos físicos são separados em dois grupos. Um grupo, “A”, tem precedência sobre o outro, “Não A”: tal resulta numa hierarquia que favorece os que se encontram na categoria “A”, levando-os a ganhar poder e controlo sobre aqueles que estão na categoria “Não A”. Esse poder e controlo estão espelhados no sexismo, no antropocentrismo e no especismo. O sexismo oprime as mulheres por elas serem, simplesmente, mulheres – não porque elas são inerentemente indignas ou inferiores, mas simplesmente porque não nasceram com genitália externa e saliente. É evidente que a natureza dos órgãos genitais não é uma diferença moral relevante, ao ponto dos homens receberem privilégios e oportunidades que são negados a quem não nasceu com genitália externa e saliente.

Similarmente, o pensamento antropocêntrico tende a assumir que todos os elementos humanos — cultura, civilizações e os próprios humanos — devem ter poder e precedência sobre todos os elementos não-humanos – o mundo natural e tudo o que nele habita. Novamente, não há diferença moral relevante entre todas as coisas humanas e todas as coisas não-humanas, de modo que o primeiro tenha maior estima ou receba mais poder e privilégio sobre o segundo. Todavia, todas as coisas humanas recebem essa estima e esse poder em relação a todas as coisas naturais e não-humanas e, como resultado, foi concluído como certo e apropriado que a Natureza seja vista como um recurso para uso humano, a qual os humanos exploram, controlam e manipulam para os seus fins pessoais(3). E, frisando, não ser humano não constitui uma distinção moralmente relevante, o que não justifica a exploração, controlo e manipulação dos animais pelos humanos. Ainda assim, aos humanos foi concedida esta vantagem, que perpetua a exploração e manipulação dos animais por e para os seres humanos.

Apesar da falta de qualquer distinção moral e relevante entre homens e não-homens, entre seres humanos, as suas civilizações e o resto da Natureza, e entre os seres humanos e o restante mundo animal, homens e humanos ocupam lugares de privilégio e poder, controlando e manipulando os outros e o mundo ao seu redor. Eis a definição de sexismo, antropocentrismo e especismo: todos os seres e outros elementos que foram agrupados, em conjunto, na categoria “Não A” — mulheres, Natureza e animais não-humanos — são injustamente discriminados e oprimidos por, em nome e em relação aos que se inserem na categoria “A”.

Tal situação justifica o controlo de “A”: quem está na categoria “A” é avaliado como alguém que pode e deve estar no comando, de modo a obter vantagens e servir-se de quem está em “Não A”, o que normaliza ser sexista, antropocêntrico e especista. Por exemplo, as mulheres, ao serem assinaladas como estando mais preocupadas com aspectos materiais (como o corpo) do que com as questões da mente, e sendo julgadas como mais propensas à emoção do que à razão, faz sentido que os homens sejam mais incentivados à educação e formação, bem como terem mais possibilidades de emprego. Assim, também faz sentido as mulheres serem empurradas para o cuidado do lar, para o trabalho doméstico e para a reprodução(4). Se as mulheres são menos cultas e menos civilizadas, é pertinente os homens controlarem as suas vidas. E, da mesma maneira, se as vacas e as galinhas carecem de razão e cultura, pelo que são mais corpo do que mente, também elas podem ser controladas por quem está na categoria “A” e usadas para propósitos “superiores” pela referida.

Através deste processo, “Não A” é visto como/torna-se dependente de “A”. As mulheres são vistas como/tornam-se dependentes dos homens para protecção e apoio financeiro; a Natureza é vista como/torna-se dependente do ser humano para cultivar e administrar áreas selvagens indomadas (distribuição da vida selvagem, inundações e incêndios florestais, por exemplo) e, supostamente, para proteger a Natureza da obliteração; e os animais não-humanos são vistos como/tornam-se dependentes do ser humano em aspectos como “gerir” (como na gestão da vida selvagem), cuidar e fornecer sustento e assistência médica (animais domésticos, etc.). E, em troca de protecção, gerenciamento e disposição, espera-se que aqueles que estão na categoria “Não A” atendam às suas necessidades – como cozinhar, limpar e proporcionar satisfação sexual, oferecer produção e pasto, e fornecer leite, ovos e carne, por exemplo. As mulheres, a Natureza e os animais são igualmente classificados como inferiores, dependentes e, por isso, devidamente controlados e explorados.

Na verdade, por os indivíduos “Não A” serem avaliados como dependentes e irracionais [definições essas criadas pelo grupo que os discrimina, explora e oprime], muitos dos que se encontram na categoria “A” sentem-se no direito de controlar quem está em “Não A” com violência. Sentem, consciente ou inconscientemente, que uma camada de força, cultura e de razão são transferidas para os que estão na categoria “Não A”, daí as mulheres, a Natureza e os animais deverem ser subservientes, de variadas maneiras, à categoria “A”.

Acontece que, mesmo quando “A” não fornece nada [de positivo] para “Não A”, os indivíduos de “A” mantêm uma posição de poder e de controlo sobre “Não A”. Recentemente [e ainda presente em algumas civilizações e culturas], era impossível uma mulher acusar o marido de violação; violentar a Terra continua a ser legal; o abuso de animais, só agora, está a começar a ser reconhecido e tratado como um crime grave (mas, regra geral, tal acontece quando os infractores são visados como perigosos para os seus semelhantes). Assim, não é surpreendente que a violência doméstica, o assédio, a violação em encontros amorosos, a violência contra animais e o abuso permaneçam teimosamente (e irritantemente) tão comuns.


Mulheres e Animais – Corpos Para Exploração

Por partilharem semelhanças entre si, do que com uma árvore ou um riacho, os paralelos da opressão são particularmente marcantes no que diz respeito às mulheres e aos animais não-humanos. Os detentores de poder (“A”) tendem a controlar e a explorar os corpos femininos, especialmente a sua biologia reprodutiva – seja mulher humana ou fêmea animal. A autoridade do marido sobre a esposa, e a incapacidade histórica de acusá-lo de violação ou de reivindicar os seus filhos contra a vontade deste, é um dos inúmeros exemplos do controlo de “A” sobre “Não A”. As mulheres e as crianças são, há muito, tratadas como propriedade exclusiva dos maridos – é a sua mulher e, portanto, a sua vagina para aceder, o seu útero para preencher, os seus filhos para continuarem com o seu nome, a sua linhagem, o seu trabalho e a sua propriedade.

Da mesma forma, os praticantes da denominada “criação animal” também compreendem o gado, os porcos e os perus como a sua propriedade pessoal – a sua vaca e a sua porca e, portanto, as suas vaginas para aceder, os seus úteros para preencher e os seus filhos para serem explorados para ganhos pessoais.

Assim como os seres humanos que criam animais para essa finalidade, que mantêm esses indivíduos em situação de dependência forçada, utilizando os seus corpos físicos para atingir os seus próprios fins, engravidando as fêmeas e reivindicando os seus descendentes, os homens, tradicionalmente, mantinham as esposas em posição de dependência forçada e usavam os seus corpos físicos para os seus próprios fins, engravidando-as e reivindicando os seus descendentes. Lamentavelmente, ainda são muitos os que ainda o fazem.

Embora o casamento tradicional(5) denuncie amplamente o controlo de “A” sobre “Não A”, o tráfico sexual é outro exemplo adequado deste fenómeno. As mulheres apanhadas na rede do tráfico sexual são vítimas que têm os seus corpos vistos como uma mercadoria que pode ser explorada lucrativamente por e para aqueles da categoria “A”. Essas vítimas são zurzidas por terem corpos femininos, órgãos genitais femininos e por serem indivíduos “Não A”. Por serem “Não A”, são vistas pelos indivíduos “A” como controláveis e exploráveis, em que outros indivíduos “A” as comprarão e, portanto, “possuem” parte do indivíduo “Não A”.

Normalmente, essa “propriedade” é comprada para o propósito explícito de “A” ter acesso ao corpo feminino para prazer sexual e, também, para trabalho doméstico. Outros indivíduos “Não A”, vulgo, animais não-humanos, também são adquiridos para os seus corpos e o seu trabalho serem explorados por pessoas da categoria “A” que desejam conquistar objectivos pessoais, nomeadamente o lucro. Assim como as pessoas que são capturadas pela indústria do tráfico sexual, os animais “de criação” são explorados especificamente por causa da sua biologia feminina. Vacas, porcas, peruas e galinhas são, adicionalmente, exploradas pelo seu leite materno, ovos e para reprodução.

Vacas na Indústria dos Lacticínios

Os “seios” (tetas, glândulas mamárias, úberes) e o leite materno das vacas são comoditizados, explorados e controlados, para fins lucrativos, por aqueles que possuem e administram fazendas e indústrias leiteiras. Os mamíferos só amamentam após o parto, pelo que os produtores recorrem a um método denominado rape rack para inseminar artificialmente vacas: consiste em inserir a mão e o braço nas suas vaginas e aspergir o esperma de um bovino através de um dispositivo próprio, para assim engravidar as vacas à força. Quando o bezerro nasce, o fazendeiro retira-o imediatamente da mãe, apesar do desespero das vacas, das suas tentativas em defender as suas crias e do seu lamento contínuo pela perda dos seus recém-nascidos. Dependendo do sexo, o bezerro ou é vendido para ser carne de vitela (machos) ou para ser criado e engravidado à força como a sua mãe (fêmeas), bem como ordenhado para a produção de produtos lácteos. Privada do seu rebento, uma vaca muge desesperadamente durante dias a fio, enquanto as máquinas estão ocupadas a bombear o leite que seria para o seu filho e que será vendido como iogurte, gelado, queijo e leite.

Tal como acontece com as mulheres e jovens apanhadas nas indústrias da violência sexual(6), o stress e a miséria que as vacas experimentam nas fazendas leiteiras têm o seu preço. Estes animais, embora possam viver naturalmente até aos 25 anos, nesta indústria começam a ser um “gasto” depois de cinco ou seis anos de gravidezes, partos, separações forçadas e ordenha perpétua. Nessa fase, são encaminhadas para o abate. Como os seus corpos foram brutalmente fustigados, frequentemente chegam ao matadouro incapazes de andar ou ficar de pé, sendo por isso drogadas ou empurradas para fora dos camiões de transporte. As vacas sofrem na indústria do leite por serem fêmeas — e porque amamentam quando dão à luz — e porque os produtores de leite sentem-se no direito de manipular e explorar a biologia feminina para ganho pessoal. Esses produtores lucram com as secreções mamárias das vacas, com a sua prole e, eventualmente, com o seu corpo quando ela é vendida para a produção de hambúrgueres.

Galinhas na Indústria de Ovos

Assim como as vacas, as galinhas são exploradas precisamente pela sua biologia feminina, já que os seus corpos produzem ovos. Quando as galinhas atingem maturidade sexual suficiente para nidificar, põem ovos até definirem uma ninhada e aí passam pela incubação até os ovos eclodirem. Obviamente, não é nada disso que acontece com as galinhas na indústria de ovos. Nesse negócio, os ovos são incubados num ambiente isolado, longe da mãe galinha: em vez de nascer no escuro, sob a penugem quente e ao som do cacarejo da sua mãe, o pintainho nasce numa superfície dura sob uma luz néon brilhante e silenciosa. As crias passarão o resto das suas vidas num ambiente artificial, sem ar fresco ou luz natural, em confinamento caótico com muitas outras galinhas. (...)

O pintainho recém-nascido é movido ao longo de uma esteira rolante: nessa etapa, os machos são retirados e descartados. Algumas indústrias empilham-nos em sacos de plástico fechados, para que sufoquem até à morte, enquanto outras os atiram para um moedor (vivos). Tal ocorre por os galos não terem utilidade para a indústria dos ovos.

Os pintainhos fêmeas, sem dúvida, ouvem os pios gritantes e desesperados dos seus irmãos enquanto continuam a descer pela esteira rolante, onde são agarradas e empurradas para uma máquina munida de uma lâmina que lhes corta uma parte significativa dos seus bicos. Daí em diante, serão incapazes de se alimentar naturalmente ou de alisar as suas penas adequadamente. Esse processo, o debeaking [debicagem], é extremamente doloroso mas estabelecido como vital para que as galinhas, num ambiente tão lotado e miserável, não se biquem umas nas outras, talvez até à morte.

Se sobreviver à remoção do bico, o pintainho fêmea será transferido para um barracão gigantesco com milhares de outros pintainhos fêmeas, onde irá crescer durante cinco meses. Caso sobreviver [a taxa de mortalidade é elevadíssima], a agora galinha será enviada para as gaiolas em bateria, do tamanho de um micro-ondas, geralmente com outras cinco galinhas. Aí, ela permanecerá, de pé, sobre uma superfície de arames, num espaço que chega a ter mais de 100 mil aves nas mesmas condições. As gaiolas estão dispostas em longas fileiras e empilhadas, o que faz com que as fezes das galinhas que estão por cima acabem por cair nas que estão por baixo. Com o tempo, os seus corpos ficam imundos e as penas quebradiças, de tão sujas.

Muitas vezes, uma companheira de jaula morre e as outras galinhas são obrigadas a viver com o cadáver. A sua carne, que raspa contra os arames da gaiola, causa feridas abertas. Os seus pulmões, que nada mais respiram, são danificados pelo amónio que, consequentemente, se vai espalhando nas cada vez mais sujas e abarrotadas gaiolas.

As gaiolas foram projectadas para roubar da jovem galinha os seus preciosos ovos, que rolam do seu corpo quente para um cocho e transportados para processamento. Durante um ano, sensivelmente, as galinhas continuam a pôr ovos que desaparecem imediatamente assim que são postos, frustrando todos os seus instintos naturais. Assim que este ciclo começa a diminuir, a comida em frente às suas jaulas também diminui. Durante uma a três semanas essas galinhas passam fome, ao qual os criadores chamam de “muda forçada”, e vivem entre e em cima de companheiras enclausuradas que estão mortas ou moribundas. As sobreviventes, quando entram num novo ciclo de postura, têm a sua comida restaurada. Mais uma vez, as aves colocam ovos diariamente que lhes são retirados. A elas nunca lhes é permitido incubar, nutrir as suas crias, criar relacionamentos com os seus filhos ou compartilhar a sua companhia numa comunidade livre de galos e galinhas.

Fortuitamente, o ciclo de postura reduz outra vez e, embora naturalmente elas sejam capazes de iniciar outro ciclo, a indústria não deseja continuar a despender recursos com elas quando começam a apresentar dificuldades ou demasiadas diminuições, até porque os seus corpos podem ser vendidos. São retiradas abruptamente das suas gaiolas, comumente puxadas por uma asa ou uma pata, pela cabeça ou pela cauda, o que pode causar fracturas ou deslocações ósseas e, ou são trituradas (vivas) e vendidas como fertilizante, soterradas (muito provavelmente vivas) ou transportadas num camião para o matadouro. Se enviadas para abate, serão penduradas de cabeça para baixo, com as pernas presas em algemas ou ganchos. É dessa forma que são levadas até à área da matança, onde alguém cortará as suas gargantas. Algumas, mesmo com as gargantas rasgadas, chegam vivas até ao tanque de água a ferver, no qual acabarão, então, por hediondamente sucumbir.

Uma galinha na indústria de ovos sofre toda essa crueldade simplesmente por ter nascido com órgãos reprodutivos femininos, numa sociedade — a nossa sociedade — em que “A” se sente no direito de manipular e explorar os seus corpos e os seus sistemas reprodutores para os seus próprios fins. Assim como homens sexistas acreditam que têm o direito de controlar e explorar mulheres e meninas, os humanos especistas acreditam que têm direito de controlar e explorar animais “de criação”, invadindo vaginas e preenchendo úteros, reivindicando (e explorando) a prole, privando os indivíduos da sua liberdade e, em última análise, tomando as suas vidas.

Opressão Compartilhada, Libertação Compartilhada

As ecofeministas reconheceram causas comuns de discriminação, tais como o dualismo e a hierarquização, levando a sistemas abrangentes de opressão. Discerniram que as mulheres, a Natureza e os animais são equitativamente desvalorizados em relação a quem está na categoria “A” e que são igualmente controlados e explorados pelos da categoria em questão. Repararam que as fêmeas, independentemente de serem humanas ou não-humanas, são igualmente desdenhadas em relação aos seus opressores e frequentemente associadas à categoria de indivíduos “Não A”, sendo vituperadas de forma semelhante pelos indivíduos da categoria “A” por conta dos seus corpos femininos e da sua respectiva anatomia reprodutiva.

Ao desenterrar estes paralelos, as ecofeministas chegaram à conclusão de que não é apropriado lutar pela libertação de apenas um grupo oprimido e ignorar os restantes que são relegados à categoria “Não A” e, portanto, sistematicamente oprimidos e explorados por indivíduos da categoria “A”. Para o ecofeminismo, que reconhece a interligação das opressões várias, libertar apenas um grupo oprimido é, além de enviesada, uma tarefa vazia e uma resposta egoísta. À luz dos sistemas de opressão, expostos pelas ecofeministas, o trabalho em mãos é, claramente, desarraigar causas comuns e desmantelar esses sistemas opressores que estão profundamente enraizados e generalizados. (...)

Resumo

As mulheres, a Natureza e os animais não-humanos padecem de similar discriminação, sendo controlados e explorados num mundo onde há muito se assumiu que é adequado que as mulheres sirvam aos homens, que os humanos explorem, controlem e manipulem o mundo natural e que os humanos explorem, controlem e manipulem os animais não-humanos. Mais notavelmente, as mulheres e os animais “de criação” são manipulados e explorados por causa da sua biologia feminina (...). As ecofeministas inferem que qualquer tentativa de libertar apenas aqueles que se parecem connosco — da nossa espécie — não é apenas egoísta como pode não ter sucesso: as mulheres não serão e não podem ser libertadas até que sistemas abrangentes de opressão e exploração sejam desmantelados, incluindo, além do sexismo, o antropocentrismo, o especismo, entre outros. Por esse motivo, muitas ecofeministas adoptaram uma alimentação vegetal, recusando a apoiar as indústrias da carne, do leite e dos ovos, e aliaram-se a ambientalistas e defensores dos animais com a intenção de ajudar a acabar com a opressão e a exploração em todas as suas formas insidiosas.

----------------------------

(1) Nota adicional da tradutora: Muitos filósofos, ao longo dos séculos, promoveram e enrijeceram este dualismo, associando o elemento racional ao masculino e o elemento emocional ao feminino. Veja-se, por exemplo, Espinosa no seu Tractatus Theologico-Politicus, ao argumentar que as mulheres são racionalmente mais fracas do que os homens e que, por isso, não se devem envolver nas questões políticas. Também afirmou, na mesma obra, que “A lei contra a matança dos animais é baseada mais na superstição vazia e numa compaixão feminina do que propriamente na razão” (E4p37s1).
(2) Adaptação da tradução.
(3) Francis Bacon, conhecido como o “pai” do Empirismo Moderno, defendeu com veemência esta posição em vários ensaios e no seu livro Novum Organum: “Somente obedecendo à Natureza [para a conhecer] podemos comandá-la.”
(4) Nota pessoal da tradutora: A autora não está, com esta inferência, a criticar as mulheres que decidiram, livremente, ficar em casa e a tomar conta dos filhos. A crítica deve-se, sim, ao que infelizmente acontece num contexto geral, em que as mulheres continuam a ser incentivadas, pressionadas e até mesmo coagidas a essas actividades mesmo contra a sua vontade. É uma situação bastante recorrente e que perpetua a discriminação violenta de muitas meninas e mulheres, que permanecem sem o direito de terem autonomia sobre a suas próprias vidas e de poderem possuir escolhas pessoais.
(5) Mais uma vez, a autora não está a atacar quem opta por este tipo de casamento. O alerta é para a ainda utilização do casamento como ferramenta de subserviência feminina, algo que se estendeu milenarmente na nossa sociedade e que continua enraizado em várias civilizações e tradições familiares.
(6) Considero importante frisar que a autora não está a comparar as mulheres, vítimas do tráfico humano e sexual, com as fêmeas não-humanas que são exploradas para consumo. A intenção é apresentar pontos comuns, fomentadores das respectivas opressões, e que acabam por interligar a discriminação de ambos os grupos.

Aceder ao artigo original e integral aqui.
Tradução para português europeu de Raposa Herbívora
A tradução não obedece ao novo acordo ortográfico.

Fotografias: Anna Shvets, CottonBro Studio
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